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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Cores impossíveis


Hoje apetece-me falar do tempo. É o que se faz, quando não se tem nada para dizer. Ou quando o tempo nos obriga a olhar para ele. O outono é tipicamente associado à decadência. A queda da folha, o presságio do final do ciclo, a porta para o inverno e por aí fora, sempre a piorar.

Hoje passei por árvores com cores impossíveis. Vermelhos vivos, laranjas, amarelos, misturados com várias tonalidades de ainda verde. E pensei nesta despedida berrante, nas folhas que, antes de caírem e se misturarem na terra, fazem esta exibição de cor. Isto é o outono, não a decadência, mas a purga. Fazemos uma festa, uma fogueira, atiramos para lá tudo o que não presta, tudo o que precisa de renovação, tudo o que já não tem uso. Como uma grande limpeza, para descansarmos no inverno, já mais leves, gavetas vazias, armários com espaço, todos nós purificados por este ritual de despejo do que está caduco. No nosso país não temos estas cores de outono e isso talvez tenha a ver com quem somos.

Abrimos a gaveta de tralha e despejamo-la toda no caixote do lixo. Sem medo de deitar fora alguma coisa importante. Importante é o que temos dentro de nós, o resto é lixo, lastro cada vez mais pesado que nos agarra aos sítios, às pessoas, quando precisamos de ir.

Encontramos no fundo da gaveta uma fotografia. Aquela, que me deste, lembras-te? Hesitamos, queremos deitá-la fora, o nosso compromisso com o outono é o de deitar tudo fora. Mas ainda assim. Aquela foto, as memórias, não será moralmente condenável deitarmos fora a recordação do que existiu? Não estaremos a apagar a história e mais isto e mais aquilo? Se calhar é. Ou se calhar não. Deita-a fora. Não és a mesma pessoa depois dessa relação, o que essa relação te deu, ou te tirou, está em ti, está em quem és, em quem não queres voltar a ser, no melhor de ti que deste e que sabes que será sempre teu. Deita-a fora, deita tudo fora.

E assim ficamos em comunhão com o outono, com menos lixo, menos drama, mais prontos para a imprevisibilidade do dia de chuva de amanhã, que vem libertar a terra seca, seguido de um dia de sol que já não tem força, mas assim acorda o que de nós já se prepara para dormir, seguido de um frio que não sabemos se veio para ficar ou se vai embora. Estamos preparados, nunca acertamos na roupa certa para o dia certo, mas ao menos sabemos que a cor impossível existe e que temos a mostrar, tirá-la debaixo da conversa do que acabou e do que podia ter sido e não foi e daqui e dali. Celebramos a cor impossível no dia em que a vemos, porque sabemos que no dia seguinte não está lá. As folhas já terão caído, o vento passou antes de nós. Mas a imagem ficou cá dentro e mudou-nos e pinta quem somos com um traço que não é sombrio, é de vida enquanto não for de morte. É de recusa de apatia enquanto o sol nascer com a promessa de esperança de um dia que é sempre novo, que nunca o vivemos, e que pode ser o princípio ou o fim, desde que seja e o respiremos todo. Cheio de cor.

RD,  24.10.2011

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Um pouco mais de azul


Secava. Qualquer coisa na natureza dele se encolhia e secava. Murchava por dentro, cada vez mais encolhido. Não que se notasse fisicamente. Não se notava. Continuava alto, enxuto, talvez apenas mais enxuto, mas direito. E, no entanto, notava-se.  Só se se olhasse para ele um pouco mais detidamente. Ou se o conhecessem há muito tempo, como era o meu caso. Via-o passar todos os dias, à mesma hora, e era como se conduzisse uma experiência cuja pergunta inicial se tinha perdido. Anotava mentalmente as diferenças e ele continuava.
Mais seco, a desaparecer por dentro, sem sinais exteriores. Apenas aquele desaparecimento de uma natureza substancial, nada de muito concreto para uma experiência científica, na verdade.

Mais palavras. Havia mais palavras. Falava mais com as pessoas, comigo, com os outros que encontrava na rua. Como se se ligasse aos outros por palavras. Um fio cada vez maior, feito de palavras, cada vez mais juntas. Como se a relação dele com os outros estivesse naqueles fios de palavras. Talvez resultasse, anotava eu mentalmente, talvez aquelas palavras substituíssem o que de fundamental secava nele. Podia ser essa a pergunta de partida da minha investigação que só existia na minha mente e cujas evidências não eram documentáveis. Mas estavam lá.

Um dia, em que o notei mais palavroso e insubstancial do que poderia prever a evolução do seu desaparecimento interior, resolvi perguntar-lhe se ele notava a transformação que se dava dentro dele. Primeiro olhou para mim em sobressalto, um pestanejar de olhos rápido. Respondeu-me apenas: eu estou bem.

Decidi não insistir e continuar a anotar mentalmente os resultados daquela experiência que eu não tinha começado, cujo resultado não previa, cujas variáveis não controlava. Observador fortuito que fui escolhido, lembrei-me que não devia interferir, sob pena de contaminar os resultados.

Mais tarde, parou ao pé de mim e estava inteiro. Como se tivesse recuperado uma parte essencial dele, aquela que tinha vindo a secar, como se tivesse feito um transplante de um órgão vital, uma regeneração interna. Os olhos brilhavam, aquosos. Sorriu, um sorriso aberto, como se cheio de substância.

O que teria ocasionado aquela mudança? Ele sabê-lo-ia? Se lho perguntasse, iria alterar o que estava a acontecer à minha frente?

Não precisei de perguntar. Disse-me, com uma alegria quase infantil, palpável, plena

Sabes? Pintei o mar

Continuei em silêncio. Com medo de acabar com o sortilégio. Não o sabia pintor. Continuou, cheio por dentro. 

Estava a pintar uma mesa. Uma barra azul, uniforme. E de repente vi que não fazia sentido. Aquela barra azul, sem vida. Risquei-a com azul-escuro, um traço profundo, e ganhou o abismo. Risquei-a de branco e ganhou espuma, rebentação, gargalhadas e violência. Risquei-a de cinzento e ameaçou tormentas, quase me afundei. Passei com um traço azul claro, quase verde, quase transparente e mergulhei de olhos abertos. Em águas calmas, mas cheias de vida. Cálidas.

Era isso? Perguntei.

Era. Sim, era isso, respondeu-me, calmo, inteiro. Fazia-me falta o mar.

RD, 17.10.2011

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Mudar ou permanecer


Muitas vezes me perguntei se crescer significaria ainda, nesta idade, como em tantas fases da infância e da adolescência, a oposição ao estado presente. Sei o que sou agora. Não sei ainda o que quero ser. Terei de ser o contrário do que sou?

Mudar implica soltar amarras. Cortar o cordão, sair de casa à noite, dormir em casa dos amigos. Deixar a casa que se comprou a meias. Deixar a meio o projecto de vida que se desenhou a dois. Deixar o emprego que precisa tanto de nós. Esta necessidade de crescer vai diminuindo de intensidade quando achamos que já somos crescidos. Afinal, já nos sustentamos. Encontrámos a nossa profissão. Fundámos a nossa família. Pagamos os nossos impostos. Pomo-nos em sentido na parada quando é hora de pagar a crise. Somos crescidos. E ainda assim, nesta estabilidade quotidianamente conquistada à pressão, o mundo pára e chama-nos.

 Interpela-nos e diz-nos: Tu. Tu aí. Sim, tu. Não estás bem assim, tens de crescer.

E nós nem ouvimos, devem estar a brincar. Eu até fiz um seguro para a empregada. Querem mais crescido do que isto? Não é a mim que chamas, de certeza, vai chamar ali o vizinho do lado que tem quarenta anos e anda a brincar às namoradas e aos carros desportivos. Ou aquele ali, que não paga a pensão de alimentos das filhas e gasta o ordenado em jogos de computador. É comigo? Não, não, desculpa, mas não cresço coisa nenhuma. O que é tu queres que eu faça mais, se até os gregos leio? Não, meu amigo. E penso no ambiente e tudo. Não é comigo.

Mas ele continua ali, a olhar para nós. Começamos a perder o sono, sentimos o olhar vigilante que espera que façamos o que não conseguimos imaginar que seja. Perdemos o apetite, custa-nos mastigar os legumes com aqueles olhos fixos na nossa nuca. Aos poucos, deixamos de nos concentrar no trabalho e os olhos passaram cá para dentro e são agora angústia. Crescente, descontrolada, não nos deixa pensar, não nos deixa a gargalhada solta.

Revisitamos os lugares do nosso crescimento. Será o trabalho? Deveria estar a fazer coisas diferentes? E agora, como faço para mudar, com esta idade? E mudar para quê? Será a nossa vida sentimental? Pois, já não é o que era, mas foi por esta estabilidade que lutámos. Estaremos a recusar aquilo que quisemos? Não nos contentamos nunca? É aquilo da condição humana, eternamente insatisfeita, que veio atrás de nós, morder-nos os calcanhares? Quem é essa condição humana, alguém lhe viu a cara? Ou os olhos?

E todas estas dúvidas, juntas, misturadas, mal formuladas, atrapalhadas, sempre na nossa cabeça, na fila do supermercado, esqueci-me dos ovos, será que esta é a vida que eu quero? Mas o que é que isso tem a ver com os ovos? Será que devo deixar de comer ovos? E perdemos o pé, já não sabemos o que está bem, o que está mal. E sobretudo perdemos a confiança em nós, porque aqueles olhos se fixaram na nossa nuca, entraram-nos pela goela, olham-nos as entranhas e não se fecham, não nos dão descanso. Se deixámos de saber o que está bem e o que está mal na nossa vida, como podemos dizer que somos crescidos? E onde deitamos fora as certezas que acumulámos? Ao lado dos seguros de vida, de saúde, da empregada? No saco verde? No azul? Há um saco para as certezas?

E uma vez que a deixámos entrar, que lhe abrimos a porta do lar, o sossego acabou. Mina tudo, a nossa cara no espelho, tudo nos parece difícil e estranho e não encontramos o interruptor para acender a luz e ser dia de novo, para a mandar embora, não há dúvida que resista a um bom golpe de sol. E ela, pérfida, dá-nos uns dias de descanso. Afinal não estamos assim tão mal, olha estas cadeiras foram tão bem escolhidas, que confortáveis. Quando é que comprei aquele vaso, tão colorido, tão elegante? Que bem que se está aqui. Ai, a luz apagou-se. As cadeiras tornam-se duras, o vaso partiu-se porque não vimos por onde íamos e os olhos fitam-nos, no escuro.

Para onde vais? Que vida é a tua? Não quero ir para lado nenhum, tenho as cadeiras, o vaso compra-se outro. Para onde vais? Que vida é a tua? E desistimos. Não lhe podemos fazer frente, temos de lhe oferecer uma cadeira para se sentar e aceitar que a dúvida veio para ficar, que estiolou a vida que tínhamos, e que, já agora, talvez nos faça as perguntas de que precisamos para a nova vida que nos reivindica.

Com esta necessidade de crescer, vem outra dúvida, esta nossa, para fazer frente àquela intrusa que nos apagou a luz, a dos olhos que não se fecham. Será esta a condição do homem pós-moderno? O hedonismo do presente, a aceitação de que tudo é caduco, que só o presente conta e nos redime, que não vale a pena preocuparmo-nos com o futuro, porque não sabemos que avião pode nele embater? Teremos nós de nos reinventar a cada vez, fazer tudo de novo, encontrar uma energia criadora para sermos novos, sermos outros, sermos além? Deixamos tudo para trás e começamos de novo a cada vez? Não será tudo isto um reflexo da fraude em que vivemos, da necessidade compulsiva de consumir e esgotar o momento?

Com estas perguntas pesadas, cheias de carga metafísica, responsáveis já não só pela nossa felicidade, mas pela do mundo, afundamo-nos ainda mais. Como é que nós, que perdemos a confiança em nós, vamos agora conseguir este projecto insano de nos reinventarmos? De fazermos tudo de novo? E esquecemo-nos de que a resposta, qualquer que ela seja, está também para além de nós.

O presente não é um tempo amnésico. É construído a pensar num futuro que queremos, com a memória do que fomos, com a certeza daquilo que ainda somos e que temos de descobrir a cada passo, a cada pergunta. Nem tudo caduca, nem tudo é novo. Não podemos escondermo-nos no passado da culpa, com medo do presente que pede transformação. Mas não podemos negar o passado de quem somos, de onde viemos, do que nos fez escolher aquelas cadeiras e optar por não comer carne vermelha. Porque nessa história estão pedaços de nós que não caducam, não têm prazo de validade e que, reconhecemos aliviados, não nos abandonaram, são a matéria de que precisamos para nos transformarmos. E aprendemos afinal que erros são cometidos, perdas são sofridas, mas não tivemos de deitar tudo fora, de nós aproveitámos o melhor e o mais forte e juntámos-lhe esta vontade de um futuro que não é o vale-tudo, porque indeterminado. O que permanece é o melhor de nós e temos de o passar a quem nos segue, juntamente com a vontade de mudar o que está mal, o que não faz sentido para nós, o que é perda de memória de uma vida que já foi diferente e que não tem de ser esta. 

E com a esperança. Sabemos que as nossas esperanças morrem a cada dia, tropeçam e estilhaçam-se no embate com a impossibilidade. Mas não podemos deixar os nossos nesta condição pós-humana de não ter esperança e de aceitar que é o que presente quiser. Porque o presente não quer nada, o presente é uma oferta. Nós é que queremos. 

E queremos o presente e queremos o futuro, cheios de passado, não feito lastro, mas feito impulsão. E queremos a ousadia do conjuntivo, num se atrevido que não nos dá respostas, mas nos deixa, ainda assim, sonhar. E em querendo, podemos querer um gerúndio, prolongado, nunca começado, nunca acabado. Teria sido diferente. É um modo complexo. E um tempo. A simplicidade do indicativo não nos obriga a mudar. Apenas a ser. 

RD, 11.10.2011

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Sem texto

Just moved in. Unpacking. No time for writing, sorry friends. Quando acalmar, veremos o que apetece escrever. Mas em português, dizem que a nossa língua materna é sempre a nossa língua das emoções. Mesmo que passem muitos anos.