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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Chora


Um dia de chuva impiedosa, sem tréguas, chorei. Quis competir com os céus, quis chorar mais do que a chuva, quis fustigar o chão que piso de lágrimas lançadas com desespero. Quis fazer parte da natureza e participar naquela limpeza desenfreada, levar o lixo todo à frente, limpar todas as coisas do mundo do pó dos tempos, numa enxurrada de lágrimas que enrola as pedras.

Esqueci-me, entre o desespero de tudo o que queria limpar e o entusiasmo de participar neste ato épico de lavagem do todo, de que não sou o céu. Nem o mar. E se os faço meus, isso não significa que me deixem participar da sua natureza.

De tanto chorar, sequei. Hoje sento-me à sombra de uma árvore sem folhas, se é que sombra se pode chamar aos riscos pretos, finos, traçados no chão, que os ramos que restam colocam entre mim e o sol.

Preciso de chorar. O pó entra-me nos olhos, o lixo do mundo aumentou tanto e eu tenho de chorar para limpar, já não tudo, porque já percebi os riscos de um dilúvio interno, pelo menos as crueldades pequenas. Sonho já encolhido pela desidratação, à minha escala.

Não chores os males do mundo, que não tens lágrimas que chegue. Vai ficar tudo cheio de lama, nada limpo, os pés presos na confusão do que criaste. Chora os teus pequenos males, o que não consegues fazer, o que fazes mal, o que não aprendes nunca. Chora a frustração de sentir que voltas sempre ao ponto de que partiste e que avançaste da sombra de uma árvore raquítica e a morrer para outra igual. 

Chora a tristeza de cada vez chorares menos. Chora uma lágrima que seja, porque ele já não está cá e nunca mais o “o que se passa, filha?”. Chora o que puderes, qualquer coisa, um pequeno assomar de água aos olhos e já era um alívio. Ou, se não conseguires mesmo, compra lágrimas artificiais. Daquelas em pequenos frascos, uma maravilha do mundo moderno. Pensa bem: dentro daquele pequeno frasquinho estão as lágrimas por alguém. Será que podes ir à farmácia e escolher o tipo de lágrimas? Olhe, dê-me um frasquinho de lágrimas pela estupidez humana, a minha também. Não, olhe, dê-me antes uma caixa de frasquinhos, várias caixas, muitas, todas as que tenha.
Estás a voltar ao mesmo erro: achas que consegues, sozinha, chorar toda a estupidez humana nos teus olhos.

Um dia, a água virá. Salgada, doce, uma pequena lágrima. E tu vais sorrir enquanto choras, porque sabes que alguma coisa dentro de ti se consertou. A chuva voltou a cair. O reservatório guardou um bocadinho de água para ti, para as tuas lágrimas. Não sejas perdulária. Não sabes quanto dura. E tu és dada a choros épicos. Chora modestamente. Chora controladamente. E espera. O inverno há de chegar.

RD, 16.01.2011

domingo, 8 de janeiro de 2012

Iludir a desilusão

Para o meu amigo Pedro, por conseguir ver para lá da desilusão.

É-te fácil aceitar a desilusão quando és tu que te iludes. Se compras um eletrodoméstico caro e achas que te vai dar sentido à vida, és tu que te iludes. E és tu que percebes que, depois de ligado e de repetir durante uns dias “ai que maravilha”, para te absolveres do preço absurdo que pagaste, continuas a sentir-te só.

Se te casas de cada vez vestida de branco, a achar que desta é que é, que vai ser tudo perfeito, que o vinho vai estar à temperatura ideal e que todos vão dar o número necessário e exato de gargalhadas, és tu que te iludes. E és tu que descobres que afinal também esta vez não contou, enganaste-te, eras muito nova, já não eras tão nova, estavas distraída, anulem isso que tu queres fingir outra vez que desta é que é a sério.

Se achas que as crianças vão comportar-se como animais de circo, fazer o seu número na perfeição, manter-se limpos naquele restaurante tão chique (agora diz-se fancy, fino é foleiro, só usado por quem não é fancy) sem partir os copos mais altos do que a cabeça deles, és tu que te iludes. E és tu que descobres, afinal, que fazem melhor figura à solta, a brincar, crianças que são.

Se és tu que esperas que adivinhem exatamente os presentes que querias no Natal, aqueles que iam deslumbrar os teus amigos, que te iam servir na perfeição e ainda assim ser uma surpresa, és tu que te iludes. E és tu que descobres que afinal as pessoas não te conhecem assim tão bem se te oferecem um livro qualquer para ler. Ou já o tens ou, se não o tens, é porque não o queres ler. Ou se te compraram um presente igual a outro que já te tinham dado. Ou se erraram no número, no destino, tu detestas resorts, já toda a gente devia saber.

E assim a criança que foste cresce e aprende o princípio da realidade. Por muito que o rejeites, que lhe conheças o cinismo que te cobra, conhece-lo, sabes quando podes brincar com ele, quando podes soltar a criança e deixá-la esperar a magia impossível sem que a desilusão seja demasiado dolorosa. Uma pequena pontada, apenas. Que triste, não se preocupam assim tanto contigo, não és o centro do universo. E a criança cresce. Como dirias tu, meu amigo, são os processos.

Apesar de ainda hoje ter desejado que alguém adivinhasse que me apetecia uma laranja numa tarde chuvosa e ninguém ter aparecido. Às vezes, ainda espero que apareças, mesmo depois da porta se ter fechado. 

E como aprendes a recuperar quando são os outros que te desiludem? Não por esperares demasiado deles, mas por te fazerem acreditar que te podiam dar mais. Tu mordeste, e era ouro. Tu seguraste-lhe a mão e era firme. Perguntaste-lhe por onde vamos e ele apontou a direção. Ele disse-me “sabes onde me encontrar” e eu acreditei que estaria lá.  Ele disse-me “fica comigo” e eu fiquei. Ele nunca magoaria uma criança. Verificaste, asseguraste-te, mediste os passos. E, no entanto. 

RD, 04.01.2011


domingo, 1 de janeiro de 2012

Um dia enfrentas o medo


Um dia enfrentas o teu maior medo. Pode até nem ser decisão tua, podes ter tido de o enfrentar porque ele te apareceu à frente e não tinhas outro caminho por onde seguir. Tiveste de passar por ele. Olhá-lo nos olhos, se é que aquilo que verdadeiramente temias tem olhos. Tem uma alma, disso estás certo. Tem uma alma que provavelmente é a tua. E na confusão do momento, na necessidade que tiveste de não parar no meio da estrada, na emboscada que te fizeram num sítio sem mais caminhos, olhaste. E o que sentiste, afinal, não foi medo. O medo que tinhas era do que poderia acontecer. Ali, onde estavas, acontecia, e o medo já não fazia sentido.

Passaste, seguiste caminho. Não te sentiste mais forte. Nem mais fraco. Sabes que passaste, pelo que poderás passar outras e outras vezes. Ou talvez não, se se perder o factor surpresa, se souberes que vai estar lá, se nao estiveres na mesma disposição com que te encontrou hoje. Talvez o medo exista mesmo quando já não faz sentido.

E no fundo sabes que não. Porque quando a confusão passou e tu já te sabias distante e tinhas silêncio, soubeste que tudo tinha mudado, sem nada ter acontecido. Tu passaste. Não soaram trompetes triunfantes, não ressoaram tambores possantes. Não cairam pétalas nos teus cabelos. No entanto, passas os dedos entre o cabelo e tiras de lá uma pétala. Tudo mudou. Quantos minutos para olhares para o que trazia acossado e seguires já sem perseguidor? Nem sabes e ninguém deu por isso. Mesmo quem estava ao teu lado e te viu estremecer e seguir a praguejar baixinho, não consegue fazer corresponder tão fracos sintomas ao que tu passaste. Só tu estavas lá dentro, tu e o teu medo.


E agora, que sabes? Não sabes. Preferes não saber. Saber implica tomar decisões e tu já fizeste muito por um dia, uma década, talvez até uma vida. Não queres decidir porque não queres o resultado da decisão. Não é irónico? Passas a vida atrás do sentido, da explicação, para quê, se depois não podes agir de acordo com o que finalmente compreendes? Melhor fingir que continuas sem saber, que nada mudou, que tudo aquilo foi só o que os outros viram: um estremecimento, um praguejar baixinho. Assim, ninguém vai te cobrar que ajas em conformidade. Não planeaste, só reagiste. Não atravesses, podem emboscar-te. Aprende a não fazer perguntas, se não sabes o que fazer com as respostas.

RD, 01.01.2012