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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A arte do pousio


Este é um texto arriscado. Posso incorrer naquilo que é considerado um pecado capital na minha religião, o de fazer generalizações. Aliás, preciso mesmo de o fazer ao longo do texto, sei-o, ainda não o escrevi e, no entanto, não consigo parar de escrevê-lo. Antes me apetecesse escrever outra coisa, uma assim mais para o lado das virtudes. Mas não. Preciso, sabe-se lá porquê, ou antes, eu sei, mas demoraria muito a explicar, de escrever sobre a necessidade de falar ou de ficar calado. E vou fazê-lo associando-o aos géneros. Já me sinto a derrapar, mas vocês são tolerantes e perdoam-me, por enquanto.

É velha a afirmação de que as mulheres precisam de falar e os homens preferem agir. Para além de generalização, vulgarizou-se tanto que incorro naquele outro pecado, que é o de dizer banalidades. Interrogo esta necessidade de os homens se calarem, mesmo quando os interpelamos, mesmo quando dizemos que estão a ser uns brutos insensíveis, mesmo que ameacemos que a nossa vida depende de falarem. Pode ser defensivo. Se não falarem, não se enterram. Pode ser ofensivo, vale tão pouco esta conversa, que nem me digno responder. Pode ser muita coisa. Pode ser uma herança ancestral dos caçadores que eram, e que sabiam que se ficassem calados e esperassem, a presa acabaria por lá ir ter.

Nós precisamos de falar à exaustão. Esmiuçar. Encontrar as razões, as des-razões, as causas e os efeitos, reais ou inventados, de preferência imaginados. Somos perfeitamente racionais, capazes de obter uma nota excelente num exercício de retórica com os argumentos e contra-argumentos que esgrimimos, numa discussão que fazemos sozinhas, enquanto eles acenam a cabeça, antes de começarem a agitar-se e a soprar. Se a vida fosse um exercício de retórica, ganhávamos, de certeza (a bicicleta?). Às vezes parece que é, ou antes fosse. Ou somos perfeitamente irracionais, deixamos as emoções transbordarem olhos fora em lágrimas abundantes, cristalinas, soluçamos, mas não paramos de falar. E obrigamos o outro a um exercício linguístico cujo estilo não escolheu, cujo tema não lhe apetece, cujo desfecho já conhece. Temos de compreender e compreendemos falando.

Dei por mim, há pouco, a ouvir uma amiga contar os argumentos e contra-argumentos de uma discussão ponderosa, um assunto sério, de amores, pois claro. Porque fazemos mais isso: para além de precisarmos de falar com o sujeito em questão, precisamos de falar sobre o que falámos com uma amiga, duas, meia dúzia. E esmiuçar o esmiuçado, num exercício que não tem fim, que se auto-alimenta, de análise do discurso do mais sofisticado que há.

Ele disse-me bom-dia. O que achas que queria dizer?

Acho que te queria dizer bom-dia. Mas foi assim um bom-dia como? Carrancudo? Insinuante? Bem-disposto? É que se foi bem-disposto, já tem outra.

Não, foi carrancudo.

Ah, isso é completamente diferente. Tens de falar com ele.

E continuamos. Dizia eu que ouvia um destes relatos, na verdade com mais conteúdo. Pensei, e disse-lho: vocês já disseram isso muitas vezes um ao outro, só se vão cansar, estafar a vossa relação, encher o vosso amor de palavras desnecessárias. E mesmo que não tivessem dito já tudo isso, não sabem que assim é? Não seria melhor afastarem-se um tempo, ficarem calados, deixarem pousar e ver o que sobra, em vez de exaurirem o que sentem nessas conversas? Ouvi-me dizer estas palavras e toda eu me recolhi. Assustei-me, pensei: estou possuída, é o demónio, mesmo não acreditando nele, apanhou-me, é castigo, é praga, é qualquer coisa sobrenatural, ai socorro, quem me salva. Olhei-me ao espelho. Não estava a crescer um bigode, a pele continua macia. As maminhas estão cá. Fui fazer o teste definitivo: olho para uma fotografia do Clooney ao lado da namorada. Acho-o lindo, ela uma descarada sem graça. Fico descansada, continuo mulher. Então o que me deu para começar a pregar o pousio, em vez da conversa esclarecedora, iluminadora, racional e adulta?

Deu-me uma terra queimada, devastada pelo fogo, destroços de imponentes árvores, reduzidas a cinzas, troncos enrolados. Uma camada de cinza alta, enterra-se os pés a andar, entranha-se na pele, abafa os sons, torna tudo negro.

Deu-me um dia de chuva, que ensopou a cinza, fê-la entrar na terra. Misturou o cheiro a queimado com o da terra molhada.

Deu-me um dia de sol, não muito quente, sol meigo, brilhante, secou a cinza, secou a lama, acendeu a vida.

Deu-me um dia de vento, muito vento. Soprou para longe os restos de cinza que se escondiam nos cantos escondidos dos troncos, soprou o lixo, soprou o cheiro a queimado.

Por baixo, estava a terra preta, fertilizada pela cinza. Ervas pequenas, muitas, um tapete delas, rompiam pelo meio da terra, pequenos caules, muito verdes, muito frescos, cheios de vida. Um pequeno pinheiro aqui e ali, tão pequenino, parece uma aldeia em miniatura. Um dia, vai dar sombra às crianças. Uma flor ainda em botão, uma promessa de branco, mais uma mancha de cor no chão escuro. Imaginem uma terra molhada, preta, cheia de pontinhos verdes e brancos, a rebentar de vida.

O pousio. O silêncio. E a recuperação, a transformação do queimado em vida, o retorno dos cheiros e dos sons. Foi isto que percebi que me deu e que quis dar à minha amiga. Não queimes mais o que já está queimado. Não destruas o que ainda pode ser vida. Espera um dia de chuva. Um dia de sol. Um dia de vento. Talvez os homens conheçam a arte do pousio. Ou talvez sejam só negligentes e pensem “deixa-a pousar”. Não o saberemos. Nem queremos ser como eles, vamos continuar a falar e a precisar de palavras, de muitas palavras. Mas às vezes conseguimos ficar caladas. E quando o conseguimos, vemos a renovação a acontecer e ficamos, encantadas, a olhar para o que sempre lá esteve, escondido pelas palavras. 

RD, 25.08.2011

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Obrigada pelos 1000!

Caríssimos, o Falsas Evidências passou as 1 000 visitas. Obrigada e parabéns para ele. Confesso que fico curiosa sobre quem me lê na Alemanha, em Espanha ou na Bélgica... Nos EUA e em Macau, eu sei. :) Palminhas, palminhas, vamos fazer uma festa!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Cada vez que dizemos adeus


À Mena, que cuida das infestantes como se fossem rainhas.
Àqueles de quem não me quero despedir, antes dizer "estou aqui".

… eu morro um pouco. Traduzido não funciona tão bem, mas não queria mais um título em inglês. Este tinha de ser em português. E na nossa língua não nos faltam formas de dizer a velha dor humana que ainda não soubemos curar. Por maior que seja o desespero, nenhuma ausência é mais funda do que a tua. Aquela triste e leda madrugada. E por aí fora. O difícil é escolher. Em cores de quadros, em ângulos de esculturas, em sons de vozes cantadas, damos forma ao adeus, tentamos aprender a viver com ele, exorcizamos o mal que nos faz, tapamos a ferida aberta com um penso pequenino, mal colado, uma ponta levantada e começa-se a ver o abismo sulcado pelo o que levaste contigo.

Seja por umas semanas, uns meses, uns dias. O tempo que me separa de ti é em medidas internas. A distância entre nós só pode ser medida a dedos. Porque o que levas de mim contigo não pode ser substituído pelo que me deixas de ti. Este trocar de peças deixa sempre espaços por preencher, sulcos profundos por onde o vento passa e é só escuridão e frio. O que me deixas teu são os lugares do sol. Separamos o nó Górdio do que é meu e do que é teu e tudo fica incompleto. Dizem as más línguas que Alexandre, o Grande, não o separou, cortou-o com a espada, não havia outra maneira. Com sorte, uma boa lâmina, um corte bem feito, sem arestas.

E não encontramos maneiras de treinar o adeus para ser outra coisa. Podíamos excluir da nossa língua as palavras despedida, adeus, saudades. Temos de excluir o mas.

Vais-te embora.

Vou. Agora estou aqui. Olha para mim.

Sim, estás aqui, mas…

Não digas mas, sabes que em nós não há mas.

Sim, tens razão. Estás aqui. Eu estou aqui.

Se aprendêssemos a substituir o adeus pelo estou aqui, talvez fôssemos menos melancólicos. Aprendíamos a aceitar o presente com o laço que traz em cima, embrulho generoso do tempo que tendemos a ignorar, de olhos postos a chorar o passado, de olhos postos a ansiar o futuro. O presente não carece de adeus.

Cada vez que dizemos adeus. Mais um pedaço que me falta. Sei em ti onde me levas, é numa parte incerta, lá dentro. Encontro-a porque está dorida das tuas noites de vigília. Sabes-me infestante, como as flores comestíveis, e tens medo que eu saia do espaço limitado em que me guardas. Mas não queres que te me arranquem as raízes e por isso vigias. Cuidas e vigias. Preço elevado por flores comestíveis, bravias, que crescem no meio das ervas, em qualquer terra.

Sei onde te guardo, porque é por todo o lado. E às vezes não sei se o que faço é meu ou teu. Se a força com que enfrento a água de olhos abertos é minha ou tua. Se aquela frase que escrevi no outro texto era feita de palavras minhas ou tuas. Quero comer as bolachas como tu as comes.

Sei onde me faltas, e é sobretudo em mim. Não é de ti que sinto falta. É de mim, da pessoa que eu sou quando estou contigo. Mas tento aprender a falar sem mas e tu estás aqui.

RD, 22.08.2011

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O texto da minha religião

Dado o sucesso do último texto, e mantendo a afirmação de que não aceito inscrições para a minha religião (a menos que paguem, claro. Assim torna-se numa religião a sério e tenho isenção de impostos. Nem eu sou assim tão esquisita), pensei nos fundamentos da minha Igreja. Preciso de uma pedra. Preciso de mandamentos. De pecados. E de virtudes. Não me parece complicado, já que não tem de ser um sistema coerente. Se o fosse, não seria uma religião. E as cosmogonias não precisam de coerência, só de ordem. A ordem é a que nós quisermos, podemos até optar por uma ordem feita de desordem.
Feitos os desnecessários preâmbulos iniciais, passemos então ao texto que enforma a minha religião. Começo pelos mandamentos, invocando a legitimidade, ao abrigo da liberdade de expressão, de adoptar alguns mandamentos de religiões alheias. E adaptar, já agora, porque se não era apenas uma mistura de ingredientes que nunca chegaria a dar um molho. E o molho é importante para a religião, para não ficar sensaborona.
1º mandamento: Não comerás bolo de chocolate à segunda-feira.
2.º mandamento: Não dormirás com quem não te apetecer.
3º mandamento: Tem de lhe apetecer a ele/ela também.
4º mandamento: Ri-te sempre, ri-te muito. Ri-te, sobretudo, de ti próprio. Quem não sabe rir, não presta para nada.
5º mandamento: Despacha o trabalho e bem feito, para aproveitares as horas de descanso.
6º mandamento: Se descansas, não deixes que te interrompam.
7º mandamento: Faz aos outros o que gostavas que te fizessem a ti. Quero dizer. Nem tudo. Faz umas coisas a uns e outras a outros.
8.º mandamento: Todas as criaturas têm o seu lugar na terra, respeita-as.
9.º mandamento: Se não fazes nada de jeito, não gastes o oxigénio dos outros.
10º mandamento: A família é o melhor que há. Não passes férias com eles.

Fundados os pilares da minha religião neste solo, vamos aos pecados e virtudes. O que significa pensar em castigos e recompensas. Veremos quando lá chegarmos.
Pecados capitais (é só para manter a designação. Aplicam-se também fora da capital. Não há pena capital, somos um povo pacífico.)
1 – Recusar-se a aprender.
2 – Comer mais do que a altura o permite.
3 – Dizer banalidades.
4 – Responder com generalizações (tipo: pois, as pessoas são assim. Quais pessoas, pá?).
5 – Usar chinelos sem ser para ir para a praia.
6 – Usar leggings brancas.
7 – Começar mais do que um terço das frases por “Eu”.

Não está mal. Continuemos.
Virtudes
1 – Fazer rir os outros.
2 – Dar mimo a quem precisa dele.
3 – Ouvir um chato, de vez em quando (uma vez por mês chega).
4 – Alimentar quem tem fome, desde que não sejam adolescentes.
5 – Estar disponível para ajudar, sobretudo quando o que estamos a fazer é uma seca. Geralmente, é.
6 – Não desistir de nós e dos outros facilmente, só porque nós e os outros somos difíceis de resolver.
7 – Amar um cão.

Como castigos e recompensas, e para não nos cansarmos mais que o exercício de elaboração teológica já vai longo, optamos por um sistema simples de pontos. Some um ponto por cada virtude posta em prática. Retire dois por cada pecado capital cometido em actos (em pensamentos não conta, cada um pensa o que quer). No fim do mês faça as contas. Se o saldo for negativo, escolhe duas virtudes para melhorar e dois pecados para combater. Se ao fim de seis meses não tiver melhorado nada, procure outra religião, esta não é para si. Se já conseguir um saldo positivo, mude de religião na mesma, esta já lhe deu tudo o que tinha a dar. Se está confuso, fique contente, essa é a disposição certa para ter fé. Aceite. E faça contas. Não tem de se preocupar com mais nada.
RD, 14.08.2011

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Losing my religion


Ao João, homem de fé, com quem posso blasfemar e falar de todas as coisas.

Minha mãe, senhora de mão de ferro, braços fortes e vontade de uma liga inquebrável, educou-me nos bons princípios da igreja católica. Uma menina tem uma lista infindável de bons comportamentos a aprender ou o inferno à espera. Hoje vejo a grande vantagem do inferno. Todos os dias, quando tento educar os meus filhos pela ética, percebo como seria mais fácil a ameaça do fogo eterno. Que jeito dá o diabo, sempre atento, sempre à espera da primeira falha, mesmo quando a internet está desligada e até nos cantos a que o Google Street View não chega.

Uma menina não se queixa, mostrar o sofrimento aos outros é falta de pudor. Uma menina não se ri à gargalhada. Estar feliz é razão para sermos castigados. Este ponto ainda hoje me confunde. Será por razões preventivas? Devemos estar sempre infelizes para nos prepararmos para a infelicidade inevitável? Hei de perguntar. Em abono da verdade histórica do meu crescimento, a pedagogia do ser discreta no sofrimento foi mais eficaz do que a que pregava a recusa das gargalhadas. Calar a alegria sempre me pareceu contra-natural.  E mais difícil do que calar a dor. Rir os dois minutos de felicidade a que temos direito sem medo de provocar os deuses invejosos continua a ser um postulado da minha religião pessoal.

Com a adolescência, naturalmente, as dúvidas. Sobretudo com a Filosofia. Não que tenha percebido a maior parte das conversas difíceis daqueles senhores com ar sisudo. Mas aprendi a perguntar. O que percebi foi básico, elementar  e, no entanto, não me deixou voltar para o mesmo lugar. Percebi que o mundo podia ser interrogado com ou sem deus. Mas que tinha de ser interrogado. Que a razão da nossa existência e da nossa forma de nos relacionarmos com os outros deve ser escrutinada. Foi uma boa lição de vida que a escola me ensinou. Não sei as datas, nem que teorias correspondem a que filósofos. Tenho vagas ideias sobre um Schopenhauer depressivo e um Kant das antinomias. Teria má nota num exame de Filosofia. Mas aprendi a questionar. E só há pouco tempo (sou uma aprendente lenta) percebi como é difícil fazermos as perguntas certas.

Mais tarde, e quando comecei a conhecer melhor a história das civilizações, percebi o que era a religião. Não foi uma rutura radical, não foi uma zanga com Deus, não decidi deixar de lhe falar. Foi mais um desencanto com todos os deuses, em geral, por não aceitar que as propriedades divinas de que são dotados, por fraquinhas que sejam, não se possam usar sempre que uma criança é violentada. Que os poderes não se possam convocar sempre que uma criança morre de fome. Que um ser divino possa virar a cara e fingir que não vê a imagem daquele bebé na Somália. E o livre arbítrio não me consola. Pois é, escolheram mal o país. Até a latitude é má, o continente todo. Que crianças irresponsáveis, não sabem escolher um sítio com água para nascer. Ou o meu dogma favorito: os desígnios do senhor são misteriosos. Dá tanto jeito, que o uso até para as minhas mudanças de humor: “olha lá, ainda há pouca estavas tão bem disposta e agora estás com essas trombas?!” “Sim, o que queres? Os desígnios do senhor são misteriosos.”

Quando passei a olhar de fora, nunca mais consegui olhar de dentro. Perdi em companhia e tenho de encontrar formas variadas de substituir o pensamento mágico. É trabalhoso. Em vez de ser o destino que decidiu, sou eu a responsável. Em vez de atirar com as culpas para o diabo, as provações, o que for, sou eu a culpada. Em vez de usar o azar (naquela graciosa e única mistura que conseguimos fazer entre religião e superstição) para justificar o que acontece, tenho de encontrar uma explicação feita de fenómenos físicos. Dá trabalho. É cansativo e não tem recompensa que se adivinhe no post mortem.

Hoje tenho uma religião privada. Desculpem, mas não aceito inscrições. É íntima e eu aprendi o pudor. Herdei da outra religião. Acredito que, de uma forma que a ciência explica, o universo tem mecanismos próprios para encontrar o equilíbrio. Nada se perde, tudo se transforma. Uma capacidade infinita de se adaptar que me faz recusar o apocalipse. Ponho-lhe uma pitada de budismo, porque acredito que a divindade somos nós e a nossa força de vontade para fazermos o que quisermos. E que devemos respeitar os outros seres como iguais. Estas são as constantes da minha religião. As variáveis variam. Há dias em que a minha religião é a poesia e acredito que não há forma mais bela e simples de ver o mundo. Um golpe de asa e eu era além. Não são precisas mais palavras para dizer o quase. Cortaram os trigos. Agora a minha solidão é maior. Dois versos e sentimo-nos isolados, nem o vento nos faz companhia.

E desculpe, João, mas não sou panteísta. Quero dizer, sou. Também sou. Sou quase tudo. É ainda pior, a minha religião parece uma daquelas lojas antigas em que se encontra veneno para os ratos, rolos de cozinha, passadores de leite e morangos da horta. Tento não ser maniqueísta, o que nem sempre é fácil. Às vezes, os maus são mesmo maus e isso dá-nos segurança. Sou de uma religião feita de pedaços disto e daquilo. De dogmas inquestionáveis acerca da necessidade de nos dedicarmos aos outros e de sermos honestos connosco. De um cepticismo praticante em relação a tudo o que me é apresentado como definitivo. De mar e de montanhas. De cinema e de literatura. Acredito no Gandalf e no Frodo, no Harry Potter,  na Rainha de Copas e na Alice.

De pessoas. Acredito nas pessoas e até gosto delas, o que é estranho, já que as pessoas são falíveis. Há pessoas maravilhosas em quem eu acredito e que, por muitos disparates que façam, serão sempre extraordinárias. Preciso ainda de magia para tirar os pés do chão por uns segundos, já que a minha prática de yoga não me deixa fazer tanto. Não venero um deus com cabeça de elefante, mas acredito que a meditação me ajuda a não precisar de estímulos constantes e a disciplinar-me. Desconfio tanto de quem usa o pensamento mágico para explicar tudo o que lhe acontece na vida como quem recusa a magia como sendo infantil. Eu sei que é uma religião estranha, mas não vos quero convencer. Como disse, não aceito mais praticantes. É uma religião unipessoal, da qual sou fundadora, sócia única,  para não ter de submeter a votação o que todos os dias lhe acrescento e o que lhe retiro. Tento sempre acrescentar mais do que retirar. Ajusto-a a mim até me sentir confortável. Sou a CEO da minha religião. Soa mesmo bem.

E descubro, afinal, que o título está desadequado ao texto. Não perdi a minha religião. Encontrei-a. Estou sempre a encontrá-la. Nas pessoas, nos sítios por onde passo, no sabor incomparável do café que bebo de manhã, no sorriso ensonado dos meus filhos. Dentro de mim. Mas mantenho o título, porque gosto da música e a minha religião também é feita de música. Não deve haver em mim religião sem música. É mais um dogma meu. 

RD, 30.07.2011

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Hei de matar uma árvore

Encosto as costas suadas ao tronco do velho mangue. Pouso o machado no chão. Penso se terei coragem de levar por diante o que me trouxe àquela sombra a que jurei não voltar. Tenho de o fazer. É ele ou eu. Levanto-me e começo a atirar com o machado contra o tronco, primeiro devagar, depois com mais força. É uma árvore centenária, o crime que cometo é homicídio triplo: matar uma árvore; matar um ser vivo que existia muito antes de mim; perturbar o equilíbrio da natureza. O peso dos meus gestos faz com que as machadadas sejam mais vigorosas. O medo do que estou a fazer mistura-se com a satisfação de saber que, depois, terei paz, e aumenta o meu vigor. Somos os dois velhos, mas eu tenho o machado. Ele tem parte de mim e tem de ma devolver.

Não posso continuar a olhar pela janela e a procurá-la na sombra do mangue. Onde tantas vezes a encontrei, ao chegar a casa. Sentada, de olhos fechados, imóvel contra o tronco, como se partilhasse da sua natureza vegetal, em paz. Deitada de lado, a cabeça apoiada na mão, a ler um livro. Enroscada numa manta, a dormir, como uma criança. A sombra está cheia dela, ela é a sombra, as formas do corpo dela recortam de luz o que a sombra quer escurecer.

O machado perfura a casca e o velho mangue reage. Vejo a imagem dela, as minhas mãos a despi-la, com sofreguidão, tantas vezes, até lhe conhecer a pele de cor. Atiro com mais força o machado contra a madeira, e a imagem desaparece. Saltam lascas cada vez maiores, vejo os meus dedos molhados a traçar linhas puras, salgadas, a marcar-lhe a pele, a incendiá-la. Atiro o machado com toda a força do meu corpo. Sinto o suor a descer-me pelas costas, vejo-a afogueada, o calor da respiração dela em mim, o teu suor misturado no meu. Aumento a frequência dos cortes, a profundidade, através da seiva. Ouço-a a ronronar, a gemer, a gritar. O buraco aberto no tronco é agora enorme, irreversível. Mas o velho mangue não parece querer desistir e continua a fazer-me ver o que quero destruir. Golpeio agora o meio do tronco mais devagar, é denso e difícil de cortar. Ouço-a a rir, enroscada em mim, as nossas gargalhadas misturadas, encantados com a magia que nos era dada sem sabermos como a tínhamos descoberto e que nos parecia sempre nova.

As imagens sucedem-se e são insuportáveis, tenho de golpear o mangue com mais força. Mas ele retalia, velho manhoso que durante anos foi cúmplice da nossa intimidade. Vejo-o a afastar os ramos para deixar os raios de sol passar e iluminar ainda mais os olhos dela. Os olhos dela. Cheios de esperança, de amor, de alegria infantil. Medo, também. Mas eu não o quis ver. Ela franzia os olhos e esfregava o nariz no meu cabelo. Morre, árvore. Golpeio ainda mais, vou buscar as últimas forças que me restam, agora não posso parar. O velho vegetal é libidinoso, vejo-o a brincar com as folhas e os ramos, a fazer os raios de sol percorrem a barriga dela, as pernas, os pés, que ela abanava no ar, uma flor de hibisco presa entre os dedos. Ela ronronava, satisfeita pelas minhas carícias, pelas do sol, da brisa, da sombra das folhas, todas concentradas na pele dela. Está quase. Mais alguns golpes e derrubo-o.

Ele apercebe-se de que o final está próximo e o que me faz ver já não são tentativas de me dissuadir, antes parecem uma despedida. Vejo-a a chorar. De felicidade, disse-me ela. Lágrimas silenciosas que lhe caíam pelas faces, os olhos a fecharem-se devagarinho, ela a sussurrar-me: não há gravidade. Só leveza. O tempo parou. Tudo está suspenso.

Ela já não é. Ou é uma ausência. Não sei se há uma gradação de existência entre não ser e ser uma ausência. Porque ela é, dentro de mim. Mas não está. Olho para a sombra do velho mangue e vejo a ausência. Ouço o rumorejar das folhas e ouço-a a ela, as gargalhadas puras dela, feitas de alegria plena. Não posso viver com uma sombra. Não posso viver com esta ausência. Tenho de a matar. Tenho de matar a sombra, a árvore, o rumorejar. Tenho de a matar a ela. Corto a madeira como se lhe cortasse a pele, a carne, os ossos, finalmente destruída, sai de dentro de mim. Devia ter sido eu a matá-la. Dobro-me ao meio, sinto os golpes como se estivesse a arrancá-la de dentro de mim, está tão funda, corre-me no sangue e eu tenho de a arrancar.  As lascas saltam, espetam-se-me na pele. Não me dói, o que me dói é lá dentro, em parte incerta, o buraco a crescer.

O velho mangue cai, finalmente. Sorrio, vitorioso. Também tu cais. Matei-te. Deixei-me cair no chão, encostado ao tronco, em cima dos pedaços afiados de madeira. Deixei cair o machado. Fecho os olhos. Já não a vejo. Só vazio.

Volto para casa, cansado, dorido. Deito-me em cima da cama sem perceber o que sinto por baixo da exaustão. Olho para fora, pela janela agora com mais luz, sem nada em frente do céu. Pela primeira vez em muitos meses, ela não está lá. Não há sombra. Fecho os olhos, satisfeito. 

Quando acordo, na manhã seguinte, verifico que a janela continua desimpedida. Aproximo-me do vidro para verificar que não há sombra na relva. Não há. Só agora ela foi. Fico ali à janela durante algum tempo. Não me quero voltar. Senti o perfume dela e estou à espera que passe. Mas não passa. E ouço a voz dela, baixa, suave: vem para a cama, meu querido. A mesma voz que sussurrava à sombra do velho mangue, agora morto. Não me posso voltar.

RD, 14.07.2011