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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

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Procura-se motivo



Sabes, dormi com ele só para me manifestar.

Desculpa? Não entendo. Para te manifestares? Contra o quê? A favor de quê? Aliás, espera. Primeiro: com quem?

Com aquele de que te falei no outro dia.

Com esse? Mas tu disseste… Ele não é nada recomendável. E nem sequer é o teu estilo.

E qual é o meu estilo, sabes? É que eu não sei bem. Este ano, usa-se amarelo. Foi impensável, durante anos. Além disso, estou mais velha, não posso usar saias tão curtas. O estilo vai mudando. E mesmo quando se recuperam estilos antigos, são reciclados. Os homens também. Os que passam de moda estão em saldos. Os outros saem caros, alguns estragam-se logo na mesma.

Tu estás pior. Agora comparas homens a roupas? Porquê? É tudo para despir?

Boa, não tinha pensado nisso, mas serve. E não me venhas dizer que estou cada vez mais cínica, como se tu também não estivesses. Bonito é para as meninas novinhas. Na nossa idade, o felizes para sempre dura cada vez menos.

Ok, não vamos ter essa conversa, fala-me antes do manifesto. Não estou mesmo a perceber. 
É um motivo extravagante para se dormir com uma pessoa.

É, não é? Mas é excitante, acredita. Manifestei-me a favor dos homens incrivelmente honestos, que não nos fazem perder tempo com jantares idiotas, a exibir as suas vitórias idiotas, a abrir a cauda do pavão, olha como eu sou tão colorido, vês? Ele foi honesto. Disse-me que me queria na cama dele. Nem que fosse uma só noite, mas que tinha de me ter.

E tu?

Eu achei que devia premiar aquela honestidade. Dei-lhe a mão e respondi-lhe que sim, que ia com ele nessa noite. Mais do que isso não prometia.

E foi bom?

Já te disse, foi excitante. Dormir com alguém a pensar que estás a fazer alguma coisa pela sociedade é estimulante, acredita. E, além disso, é sempre um motivo extravagante. Tu tens algum?

Para a troca? Não, só tenho coisas banais, como dormir com uma pessoa por ter pena dela. Ou por não me apetecer ir para casa sozinha, essas coisas.

Sim, são banais. Podias experimentar manifestar-te.

Podia. Mas a favor de quê?

Sei lá. Tanto faz, desde que não seja banal. Assim em favor das espécies em vias de extinção, por exemplo. É bem adequado.

RD, 08.12.2011

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Procura-se dor



Alguém viu a minha dor? Tinha-a agora mesmo aqui e não a encontro. Era uma dor assim enorme, imensa, não sei como a perdi. Nem sei quando, é terrível. Quero dizer, não devia ser, afinal perder uma dor devia ser um alívio. Mas estava tão habituado a ela que agora não sei o que fazer. Doeu-me ali, naquele sítio, durante tanto tempo e, nalgum momento que eu queria ter registado, passou. Não ouvi fogos de artifício, não festejei, não dei sequer por se ir embora.
Já nos conhecíamos tão bem, até me fazia companhia. 

Sim, claro que doía. E era mau. Mas estava lá, ocupava um lugar que agora está sem nada. Parece que sinto o sítio da ausência da dor, como se fosse um membro amputado. Sabes aquelas histórias que contam das pessoas que perdem um membro e continuam a senti-lo? Pois é isso que me está a acontecer. A dor não está lá, mas sinto o sítio em que estava. Deve ter sido por isso que não dei por se ter ido embora. E agora o que faço sem a minha dor? Não, não penses nisso. Não se troca o sítio da dor por um sítio de alegria. A alegria, tenho-a noutro lugar. Não se consegue substituir assim os espaços desocupados. Sabes, uma dor assim é como o sítio em que outrora houve uma central nuclear. Fica tudo contaminado, nada cresce. Ou se cresce, é tóxico e não se lhe deve tocar. Deve ficar assim, deserto, protegido para defender de quem o queira reivindicar. Porque isso acontece, sabes? Vêem ali um espaço e pensam logo: podia ser meu, eu podia ocupar aquele espaço. Mas não podem. Temos sempre de inventar novos lugares, tapar os que ficaram perdidos e continuar. Avançamos e para trás deixamos terra aberta, mal tapada, minas que deram ouro e agora não sabemos o que fazer com elas, pedreiras a céu aberto cujas pedras se esgotaram. Ou esgotou-se a nossa força para as extrair. E avançamos. Não podemos é andar às voltas, ou ainda caímos nos buracos que deixámos para trás. Avançamos e destruímos mais um pedaço de terra boa, abrimos, escavamos, enterramos lá as fundações do que é novo e quer crescer. Sabendo que um dia vai ser só dor. E que, mesmo quando a dor acabar, onde ela esteve nada estará.

Se nos acaba o espaço? Se calhar, acaba-se. Se calhar, conseguimos abrir cada vez menos novos espaços, tantos já foram destruídos. Mas nós também acabamos e podemos chegar ao fim sem espaço. Tanto faz. Nessa altura, já não precisamos de nada. Também podemos poupá-lo, e morrer com muito espaço impoluto, em branco, uma pureza de dor não vivida, a todo o custo evitada. Sei lá o que é melhor. Só sei que não encontro a minha dor e que lhe sinto a falta.

RD, 08.12.2011

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Desencontros inventados


Pegou-lhe no pulso e puxou-a delicadamente. Avançou devagar como se se aproximassem do fim do território conhecido. Apontou, emocionado, para a frente dos pés de ambos, uma sombra no chão, a luz era já pouca. Ela esforçava-se para ver o que ele lhe mostrava com tanto entusiasmo, calado pela emoção. Depois percebeu e não deu tempo à surpresa, não podia dar. Ou talvez não fosse exactamente uma surpresa, talvez já o soubesse há muito tempo, desde sempre.
Falou, sem parar, sem hesitar. Sentindo que tinha de lho dizer, que o ia magoar, pôr em causa uma parte importante dele, mas, se não o fizesse, nenhum dos dois se salvava, ele também não. Falou a apontar para o mesmo sítio que ele apontara, como se visse o que ele via.
O que me mostras é só teu. Não mo devias dar, não mo devias sequer mostrar. Tudo isto que me queres dar, não existe, não tem nada meu, não tem nada nosso. Tudo o que vês, daqui até ali, foste tu que o construíste. Consegues ver o que é meu? Foste tu que o puseste lá. Mas são espaços paralelos, a solidão deles vê-se daqui, estão ao lado um do outro e não se tocam. O que é meu e o que é teu é facilmente separável. Não há aqui nada nosso, não o quero.
Tirou devagar o braço da mão dele, que não ofereceu resistência. Ele estava paralisado, a olhar para onde ela apontara. Apesar de ser o mesmo sítio, não apontara para o mesmo que ele, não vira o que ele lhe quisera dar.
Não sabia o que responder. Estava zangado, sobretudo consigo próprio, por não ter previsto a reacção dela. Se a construção dele tinha um defeito, era esse: não ter previsto o eterno feminino de nunca ficarem satisfeitas com o que se lhes dá. Fizera tudo aquilo para ela. Inventara aquele amor para ela. Perfeito, sem uma falha. Deu-lho, pô-lo nas mãos. O amor mais perfeito que a humanidade tinha conhecido, concebido, planeado, construído por ele. E ela recusara-o. Pior, não o reconhecera. Dizia-lhe que o que ele lhe dava não existia fora dele. Era só dele, apaixonado pelo amor, apaixonado pela perfeição do que criara. Com o único defeito de precisar dela para existir. Ou talvez nem precisasse, talvez pudesse passar sem ela, ficar ali sozinho a olhar, fascinado por aquela perfeição.
E agora? Não sei, sou só a narradora. Estas personagens difíceis que se metem em histórias desencontradas esperam sempre que alguém lhes resolva os problemas, lhes encontre uma solução dramática, trágica ou feliz. Estou cansada destas personagens que se inventam, inventam problemas, inventam amores inventados e esperam que lhes resolva a vida. Não, desta vez não, meus amigos. Leiam alguma história que vos sirva de inspiração, vejam um filme do Woody Allen, o que quiserem. Eu vou ler um livro de ficção que fala de gente com problemas reais e que não se dedica a inventar a vida de outros. Vão à vossa vida. 

RD, 21.11.2011

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A casa dos horrores


Brincam na rua. Vestidos de esqueletos, como a contrariar a nudez que a morte traz. Uma morte ao contrário, vestem-se de ossos. Leva a carne, as veias, a pele. Ficam os ossos limpinhos, agora pintados no tecido. Vestidos de bruxas, de vampiros, de seres deformados, com maquilhagens cada vez mais sofisticadas, tornam as aberrações fingidas mais próximas de uma realidade que não existe.

Exorcizam os medos, brincando com eles. Os risos roçam a histeria, há uma nota de medo nas gargalhadas que ecoam na noite. E talvez seja uma forma saudável de lidarmos com os nossos esqueletos. Todos temos esqueletos nos armários, uns mais limpinhos, outros já cheios de pó, irrecuperáveis, escondidos lá no fundo mais inacessível, escuro, a porta mais alta. Podemos modernizar os nossos medos, tal como modernizamos os armários, limpá-los, expô-los,  organizá-los.

Esqueletos expostos num belo closet, demarcados por organizadores de roupa, de sapatos,  de cintos. Há muito tempo atrás, um arquitecto tentou vender-me que o moderno, o que se usava lá fora, era o closet, tentando com isso convencer-me da minha necessidade de um armário aberto, sem portas. Eu, que não sou moderna, achei aquilo uma estupidez. Ainda acho. Por que raio uma palavra que vem de fechar, fechado, há de nomear um espaço de exposição de roupas? Será que deveriam ficar com as etiquetas penduradas, à vista?

Também podíamos pôr um preço nos nossos esqueletos, nos nossos medos, nas nossas vergonhas, nas nossas perdas, e organizá-los por valor, de forma a integrarem harmoniosamente a paisagem do nosso closet. Os mais caros são os que se podem mostrar, aqueles que nos foram impostos e que todos conhecem e aceitam. Até nos tratam melhor por os termos. Podemos falar deles. Podemos mostrá-los. São esqueletos limpinhos. O esqueleto do meu pai, à frente, ao lado de uns sapatos Louboutin. Ou o do meu cão. Não estou a comparar a perda do meu pai com a do meu cão. Ocupam espaços diferentes, apesar de o meu pai não ter sido alto e de o meu cão ter sido grande.

Nas prateleiras mais altas, ainda à vista, mas já não tão expostos, os nossos medos dizíveis. As fobias. Água a entrar-me pelos olhos. Iguanas a fugir à minha frente. Coisas dessas. Ao lado das camisolas que ainda não conseguimos deitar fora, mas que já não nos fazem falta.

Lá no fundo, no canto escuro, num sítio a que nem os mais modernos leds chegam, a caixa negra. Os nossos medos mais tenebrosos, mais miseráveis, mais feios. Ficarmos nus em público. Caírem os dentes todos ao mesmo tempo. O que fiz naquele verão. Alguém olhar para nós e ver como somos realmente. Somos feitos da matéria mais ignóbil e mais preciosa. Vida e podridão. Capazes do melhor e do pior. A caixa que ninguém pode abrir, a menos que nos afoguemos. Não deixamos que se aproximem. Está ligada a mecanismos de defesa fantásticos e tecnologicamente avançados, que incluem cães de três cabeças e feixes de laser. Nem um agente secreto de sucesso de bilheteira. Porque nós estamos sentados em cima dela, caso tudo o resto falhe. Não a abrem. E tão obcecados estamos com a sua defesa que às vezes somos só nós e ela, os dois sozinhos. Já ninguém a quer ver e nós mantemos a guarda.

É feita de chumbo e o peso mantém-nos com os pés na terra. Se nos atrevêssemos a deixá-la vulnerável, talvez conseguíssemos voar. 


RD, 31.10.2011

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Cores impossíveis


Hoje apetece-me falar do tempo. É o que se faz, quando não se tem nada para dizer. Ou quando o tempo nos obriga a olhar para ele. O outono é tipicamente associado à decadência. A queda da folha, o presságio do final do ciclo, a porta para o inverno e por aí fora, sempre a piorar.

Hoje passei por árvores com cores impossíveis. Vermelhos vivos, laranjas, amarelos, misturados com várias tonalidades de ainda verde. E pensei nesta despedida berrante, nas folhas que, antes de caírem e se misturarem na terra, fazem esta exibição de cor. Isto é o outono, não a decadência, mas a purga. Fazemos uma festa, uma fogueira, atiramos para lá tudo o que não presta, tudo o que precisa de renovação, tudo o que já não tem uso. Como uma grande limpeza, para descansarmos no inverno, já mais leves, gavetas vazias, armários com espaço, todos nós purificados por este ritual de despejo do que está caduco. No nosso país não temos estas cores de outono e isso talvez tenha a ver com quem somos.

Abrimos a gaveta de tralha e despejamo-la toda no caixote do lixo. Sem medo de deitar fora alguma coisa importante. Importante é o que temos dentro de nós, o resto é lixo, lastro cada vez mais pesado que nos agarra aos sítios, às pessoas, quando precisamos de ir.

Encontramos no fundo da gaveta uma fotografia. Aquela, que me deste, lembras-te? Hesitamos, queremos deitá-la fora, o nosso compromisso com o outono é o de deitar tudo fora. Mas ainda assim. Aquela foto, as memórias, não será moralmente condenável deitarmos fora a recordação do que existiu? Não estaremos a apagar a história e mais isto e mais aquilo? Se calhar é. Ou se calhar não. Deita-a fora. Não és a mesma pessoa depois dessa relação, o que essa relação te deu, ou te tirou, está em ti, está em quem és, em quem não queres voltar a ser, no melhor de ti que deste e que sabes que será sempre teu. Deita-a fora, deita tudo fora.

E assim ficamos em comunhão com o outono, com menos lixo, menos drama, mais prontos para a imprevisibilidade do dia de chuva de amanhã, que vem libertar a terra seca, seguido de um dia de sol que já não tem força, mas assim acorda o que de nós já se prepara para dormir, seguido de um frio que não sabemos se veio para ficar ou se vai embora. Estamos preparados, nunca acertamos na roupa certa para o dia certo, mas ao menos sabemos que a cor impossível existe e que temos a mostrar, tirá-la debaixo da conversa do que acabou e do que podia ter sido e não foi e daqui e dali. Celebramos a cor impossível no dia em que a vemos, porque sabemos que no dia seguinte não está lá. As folhas já terão caído, o vento passou antes de nós. Mas a imagem ficou cá dentro e mudou-nos e pinta quem somos com um traço que não é sombrio, é de vida enquanto não for de morte. É de recusa de apatia enquanto o sol nascer com a promessa de esperança de um dia que é sempre novo, que nunca o vivemos, e que pode ser o princípio ou o fim, desde que seja e o respiremos todo. Cheio de cor.

RD,  24.10.2011

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Um pouco mais de azul


Secava. Qualquer coisa na natureza dele se encolhia e secava. Murchava por dentro, cada vez mais encolhido. Não que se notasse fisicamente. Não se notava. Continuava alto, enxuto, talvez apenas mais enxuto, mas direito. E, no entanto, notava-se.  Só se se olhasse para ele um pouco mais detidamente. Ou se o conhecessem há muito tempo, como era o meu caso. Via-o passar todos os dias, à mesma hora, e era como se conduzisse uma experiência cuja pergunta inicial se tinha perdido. Anotava mentalmente as diferenças e ele continuava.
Mais seco, a desaparecer por dentro, sem sinais exteriores. Apenas aquele desaparecimento de uma natureza substancial, nada de muito concreto para uma experiência científica, na verdade.

Mais palavras. Havia mais palavras. Falava mais com as pessoas, comigo, com os outros que encontrava na rua. Como se se ligasse aos outros por palavras. Um fio cada vez maior, feito de palavras, cada vez mais juntas. Como se a relação dele com os outros estivesse naqueles fios de palavras. Talvez resultasse, anotava eu mentalmente, talvez aquelas palavras substituíssem o que de fundamental secava nele. Podia ser essa a pergunta de partida da minha investigação que só existia na minha mente e cujas evidências não eram documentáveis. Mas estavam lá.

Um dia, em que o notei mais palavroso e insubstancial do que poderia prever a evolução do seu desaparecimento interior, resolvi perguntar-lhe se ele notava a transformação que se dava dentro dele. Primeiro olhou para mim em sobressalto, um pestanejar de olhos rápido. Respondeu-me apenas: eu estou bem.

Decidi não insistir e continuar a anotar mentalmente os resultados daquela experiência que eu não tinha começado, cujo resultado não previa, cujas variáveis não controlava. Observador fortuito que fui escolhido, lembrei-me que não devia interferir, sob pena de contaminar os resultados.

Mais tarde, parou ao pé de mim e estava inteiro. Como se tivesse recuperado uma parte essencial dele, aquela que tinha vindo a secar, como se tivesse feito um transplante de um órgão vital, uma regeneração interna. Os olhos brilhavam, aquosos. Sorriu, um sorriso aberto, como se cheio de substância.

O que teria ocasionado aquela mudança? Ele sabê-lo-ia? Se lho perguntasse, iria alterar o que estava a acontecer à minha frente?

Não precisei de perguntar. Disse-me, com uma alegria quase infantil, palpável, plena

Sabes? Pintei o mar

Continuei em silêncio. Com medo de acabar com o sortilégio. Não o sabia pintor. Continuou, cheio por dentro. 

Estava a pintar uma mesa. Uma barra azul, uniforme. E de repente vi que não fazia sentido. Aquela barra azul, sem vida. Risquei-a com azul-escuro, um traço profundo, e ganhou o abismo. Risquei-a de branco e ganhou espuma, rebentação, gargalhadas e violência. Risquei-a de cinzento e ameaçou tormentas, quase me afundei. Passei com um traço azul claro, quase verde, quase transparente e mergulhei de olhos abertos. Em águas calmas, mas cheias de vida. Cálidas.

Era isso? Perguntei.

Era. Sim, era isso, respondeu-me, calmo, inteiro. Fazia-me falta o mar.

RD, 17.10.2011

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Mudar ou permanecer


Muitas vezes me perguntei se crescer significaria ainda, nesta idade, como em tantas fases da infância e da adolescência, a oposição ao estado presente. Sei o que sou agora. Não sei ainda o que quero ser. Terei de ser o contrário do que sou?

Mudar implica soltar amarras. Cortar o cordão, sair de casa à noite, dormir em casa dos amigos. Deixar a casa que se comprou a meias. Deixar a meio o projecto de vida que se desenhou a dois. Deixar o emprego que precisa tanto de nós. Esta necessidade de crescer vai diminuindo de intensidade quando achamos que já somos crescidos. Afinal, já nos sustentamos. Encontrámos a nossa profissão. Fundámos a nossa família. Pagamos os nossos impostos. Pomo-nos em sentido na parada quando é hora de pagar a crise. Somos crescidos. E ainda assim, nesta estabilidade quotidianamente conquistada à pressão, o mundo pára e chama-nos.

 Interpela-nos e diz-nos: Tu. Tu aí. Sim, tu. Não estás bem assim, tens de crescer.

E nós nem ouvimos, devem estar a brincar. Eu até fiz um seguro para a empregada. Querem mais crescido do que isto? Não é a mim que chamas, de certeza, vai chamar ali o vizinho do lado que tem quarenta anos e anda a brincar às namoradas e aos carros desportivos. Ou aquele ali, que não paga a pensão de alimentos das filhas e gasta o ordenado em jogos de computador. É comigo? Não, não, desculpa, mas não cresço coisa nenhuma. O que é tu queres que eu faça mais, se até os gregos leio? Não, meu amigo. E penso no ambiente e tudo. Não é comigo.

Mas ele continua ali, a olhar para nós. Começamos a perder o sono, sentimos o olhar vigilante que espera que façamos o que não conseguimos imaginar que seja. Perdemos o apetite, custa-nos mastigar os legumes com aqueles olhos fixos na nossa nuca. Aos poucos, deixamos de nos concentrar no trabalho e os olhos passaram cá para dentro e são agora angústia. Crescente, descontrolada, não nos deixa pensar, não nos deixa a gargalhada solta.

Revisitamos os lugares do nosso crescimento. Será o trabalho? Deveria estar a fazer coisas diferentes? E agora, como faço para mudar, com esta idade? E mudar para quê? Será a nossa vida sentimental? Pois, já não é o que era, mas foi por esta estabilidade que lutámos. Estaremos a recusar aquilo que quisemos? Não nos contentamos nunca? É aquilo da condição humana, eternamente insatisfeita, que veio atrás de nós, morder-nos os calcanhares? Quem é essa condição humana, alguém lhe viu a cara? Ou os olhos?

E todas estas dúvidas, juntas, misturadas, mal formuladas, atrapalhadas, sempre na nossa cabeça, na fila do supermercado, esqueci-me dos ovos, será que esta é a vida que eu quero? Mas o que é que isso tem a ver com os ovos? Será que devo deixar de comer ovos? E perdemos o pé, já não sabemos o que está bem, o que está mal. E sobretudo perdemos a confiança em nós, porque aqueles olhos se fixaram na nossa nuca, entraram-nos pela goela, olham-nos as entranhas e não se fecham, não nos dão descanso. Se deixámos de saber o que está bem e o que está mal na nossa vida, como podemos dizer que somos crescidos? E onde deitamos fora as certezas que acumulámos? Ao lado dos seguros de vida, de saúde, da empregada? No saco verde? No azul? Há um saco para as certezas?

E uma vez que a deixámos entrar, que lhe abrimos a porta do lar, o sossego acabou. Mina tudo, a nossa cara no espelho, tudo nos parece difícil e estranho e não encontramos o interruptor para acender a luz e ser dia de novo, para a mandar embora, não há dúvida que resista a um bom golpe de sol. E ela, pérfida, dá-nos uns dias de descanso. Afinal não estamos assim tão mal, olha estas cadeiras foram tão bem escolhidas, que confortáveis. Quando é que comprei aquele vaso, tão colorido, tão elegante? Que bem que se está aqui. Ai, a luz apagou-se. As cadeiras tornam-se duras, o vaso partiu-se porque não vimos por onde íamos e os olhos fitam-nos, no escuro.

Para onde vais? Que vida é a tua? Não quero ir para lado nenhum, tenho as cadeiras, o vaso compra-se outro. Para onde vais? Que vida é a tua? E desistimos. Não lhe podemos fazer frente, temos de lhe oferecer uma cadeira para se sentar e aceitar que a dúvida veio para ficar, que estiolou a vida que tínhamos, e que, já agora, talvez nos faça as perguntas de que precisamos para a nova vida que nos reivindica.

Com esta necessidade de crescer, vem outra dúvida, esta nossa, para fazer frente àquela intrusa que nos apagou a luz, a dos olhos que não se fecham. Será esta a condição do homem pós-moderno? O hedonismo do presente, a aceitação de que tudo é caduco, que só o presente conta e nos redime, que não vale a pena preocuparmo-nos com o futuro, porque não sabemos que avião pode nele embater? Teremos nós de nos reinventar a cada vez, fazer tudo de novo, encontrar uma energia criadora para sermos novos, sermos outros, sermos além? Deixamos tudo para trás e começamos de novo a cada vez? Não será tudo isto um reflexo da fraude em que vivemos, da necessidade compulsiva de consumir e esgotar o momento?

Com estas perguntas pesadas, cheias de carga metafísica, responsáveis já não só pela nossa felicidade, mas pela do mundo, afundamo-nos ainda mais. Como é que nós, que perdemos a confiança em nós, vamos agora conseguir este projecto insano de nos reinventarmos? De fazermos tudo de novo? E esquecemo-nos de que a resposta, qualquer que ela seja, está também para além de nós.

O presente não é um tempo amnésico. É construído a pensar num futuro que queremos, com a memória do que fomos, com a certeza daquilo que ainda somos e que temos de descobrir a cada passo, a cada pergunta. Nem tudo caduca, nem tudo é novo. Não podemos escondermo-nos no passado da culpa, com medo do presente que pede transformação. Mas não podemos negar o passado de quem somos, de onde viemos, do que nos fez escolher aquelas cadeiras e optar por não comer carne vermelha. Porque nessa história estão pedaços de nós que não caducam, não têm prazo de validade e que, reconhecemos aliviados, não nos abandonaram, são a matéria de que precisamos para nos transformarmos. E aprendemos afinal que erros são cometidos, perdas são sofridas, mas não tivemos de deitar tudo fora, de nós aproveitámos o melhor e o mais forte e juntámos-lhe esta vontade de um futuro que não é o vale-tudo, porque indeterminado. O que permanece é o melhor de nós e temos de o passar a quem nos segue, juntamente com a vontade de mudar o que está mal, o que não faz sentido para nós, o que é perda de memória de uma vida que já foi diferente e que não tem de ser esta. 

E com a esperança. Sabemos que as nossas esperanças morrem a cada dia, tropeçam e estilhaçam-se no embate com a impossibilidade. Mas não podemos deixar os nossos nesta condição pós-humana de não ter esperança e de aceitar que é o que presente quiser. Porque o presente não quer nada, o presente é uma oferta. Nós é que queremos. 

E queremos o presente e queremos o futuro, cheios de passado, não feito lastro, mas feito impulsão. E queremos a ousadia do conjuntivo, num se atrevido que não nos dá respostas, mas nos deixa, ainda assim, sonhar. E em querendo, podemos querer um gerúndio, prolongado, nunca começado, nunca acabado. Teria sido diferente. É um modo complexo. E um tempo. A simplicidade do indicativo não nos obriga a mudar. Apenas a ser. 

RD, 11.10.2011