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sexta-feira, 2 de março de 2012

A arte de reciclar


Abriu o velho portão - se é que se podia chamar portão ao conjunto mal amanhado de peças que não foram feitas para estar juntas. As placas de metais diferentes agarradas a tábuas de madeiras das mais diversas origens misturavam-se com a cor de tintas de muitas décadas agarrada às mãos dele. Como se as mãos dele fossem também um dos materiais que tinha domado ao longo da vida, e se tivessem tornado parte deles. Tortas, sujas de manchas que já nada lavava, marcadas de cortes de um ou outro ferro mais resistente a ser dobrado. 
Lá dentro, a luz era pouca, mas ele estava habituado a trabalhar naquela semi-penumbra, com o pó filtrado pelas gretas nas paredes e o cheiro intenso a óleo, tinta, limalha.
Toda a vida reciclara objetos. Muito antes das preocupações passivas que agora ocupavam toda a gente. Nunca deitara uma lata fora, podia cortá-la a meio e usá-la em inúmeras novas construções. Tinha sido alvo de chacota mais vezes do que se podia lembrar. Diziam que as suas construções eram bizarras,  que não tinham utilidade, porque, mesmo que funcionassem, ficavam tão feias e desconjuntadas que ninguém lhes via utilidade para além do aspeto mal conjugado. 
Agora veriam. E viriam ter com ele. De todo o lado. Porque o que ele tinha conseguido reciclar mais ninguém conseguira ainda. E o mundo estava a ficar cheio até ao insustentável de amores no lixo. Não havia sistema de relações humanas que suportasse tanto desperdício e o tempo de uso era cada vez menor. Já não chegava ao fim da garantia. Dois anos era já um amor saudável e robusto, muitos ficavam pelo caminho. Não sobreviviam. E já nem eram só os mais fracos que pereciam. Ultimamente, parecia-lhe já epidémico. Mesmo aqueles que pareciam eletrodomésticos alemães, feitos para durar uma vida, ou pelo menos 20 anos, que vinte anos já conta como uma vida, mesmo esses avariavam. Paravam. Deixavam de funcionar. Eram abandonados à beira da estrada pelos mais apressados, recolhidos pelos mais conscienciosos. Um serviço de recolha de amores avariados, precisava de acrescentar isso à sua lista. 
E todos viriam. Ela já não me ouve. Um ouvido para substituir. Ele já não me toca. Umas mãos para arranjar. Ela não tem tempo para mim. Vejamos o colo. Tem o colo avariado, qualquer amor precisa de um bom colo. Como precisa de ouvidos que funcionem bem. E de mãos que saibam sentir,  excitar e acalmar e devolver a vida ao que está adormecido. 
Como as dele. Tinha trabalhado as suas mãos nos materiais em que tocara e todos tinham saído transformados, materiais e mãos, a partilhar a dureza de uns, a agudeza de outros, o calor daquelas que agora estendia para dar vida.
Olhou para a prancha de trabalho. Agora todos viriam. Só precisava de lhe tocar com as suas mãos e fazê-la acordar, estremunhada, o sorriso quente, a antecipar o desejo dele, menina de novo, a enrolar-se mulher nele. Tinha a certeza de que resultaria. O aspeto não era bonito. Tinha substituído cuidadosamente todos os pedaços nela que deixaram de funcionar. Por metal, onde precisava que ela fosse mais resistente. O metal quente misturava-se na carne harmoniosamente. Por vidro, onde precisava que ela fosse mais transparente. Por madeira, onde a queria mais suave. Reciclara o seu amor. Agora bastava tocar-lhe e tinha a certeza de que ela acordaria e seria menina de novo, os olhos de vidro brilhantes de amor por ele, a garganta de madeira e cordas a ronronar de vontade de o receber. O seu amor viveria de novo, ele conseguia reciclar tudo.


RD,  02.03.2012

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