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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Texto lacunar


Falamos o texto das nossas vidas como quem faz um texto lacunar. Deixamos os espaços para os outros preencherem. Espaços curtos, limitados ao que está antes e ao que vem depois, como num exercício de adivinhação, muitas vezes cruel, porque as possibilidades raramente se reduzem a uma palavra certa, aquela que nós queremos ouvir. E se os outros erram, um traço por cima, 6 certos em 10, 4 errados, não é uma média má. A menos que aqueles 4 fossem em momentos em que a palavra certa teria salvado tudo. Em que um sim ou não em vez de um talvez teriam acabado um parágrafo.

Vivemos neste jogo de crueldade, como se capacidade de os outros adivinharem o que completa os nossos espaços em branco fosse o comprovativo do que sentem por nós, do quanto nos conhecem, do bem – ou mal – que nos querem. Quando, muitas vezes, o espaço que deixámos por preencher não os deixa fazer mais do que tentar acertar, numa tentativa já pouco convincente, na palavra que queremos ouvir.

Outras vezes, preenchemos nós os espaços. Dizem-nos “quero-te” e ouvimos “quero-te só a ti”. Dizem-nos “amo-te” e ouvimos “amo-te mais do que tudo”, dizem-nos “querida” e ouvimos “querida, quero-te”. Dizem-nos “podes contar comigo” e ouvimos “podes contar sempre comigo, em qualquer altura, para o que for”. Vivemos destes exercícios de completar o que os outros nos dizem, em vez de perguntar o que se segue. Ou de deixarmos os espaços limitados para os outros completarem, como se nunca confiássemos na capacidade que poderão ter de produzir uma frase inteira, um diálogo feito a dois, em que as perguntas são verdadeiras e as respostas totais, e não uma dança de ameaças subentendidas ou de chantagens emocionais veladas em palavras que esperam a resposta certa, a que queremos ouvir, a que só nós conseguimos produzir, numa relação que é, afinal, só connosco.

E talvez todo este esforço em deixar tão pouco espaço em branco para os outros seja apenas o medo de um “mas”. O “mas” poderá ser a palavra mais poderosa da nossa língua. Experimentem o exercício “quero-te, mas não é só a ti”; “amo-te, mas não tenho tempo”; “ia contigo a qualquer lugar do mundo, mas agora não posso”; “podes contar sempre comigo, mas hoje não”. O efeito destruidor de tudo o que foi dito antes é garantido. Nada sobrevive a um mas. Não podemos deixar, nas frases que servimos aos outros prontas a dizer, naquelas que adivinhamos, antecipamos, criamos condições para serem produzidas, o espaço para um mas. Mais vale começarmos nós pelo “mas”. “Mas não me queres?” “Quero-te, mas…” “Mas, o quê? Eu já te tinha dito mas, não me venhas agora repetir o mas.”

E este é o espaço dos outros dentro de nós. Lacunar. Entrelaçado com o espaço de outros, delimitado no que esperamos deles. E no que queremos que adivinhem, sem nunca termos de o dizer. E sem mas, afinal na nossa cabeça o amor dos outros por nós é sempre incondicional. Sobretudo quando fomos nós que o criámos.


RD, 02.02.2012

2 comentários:

  1. Como tudo é verdade! Que perspicácia! E como está bem escrito!
    Gosto! Sem "mas"!

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  2. Que bela leitura neste fim de tarde, início de fim de semana... Obrigada, Regina. Um beijo, Maria Manuel

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