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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Dizer a verdade a mentir


Ela dizia-me que não mentia. Eu ria-me. Ela ficava ofendida e insistia. Sabes bem que é verdade, eu não minto. Tentei explicar-lhe que, só por dizer isso, me estava a mentir. Que, por muita vontade que tenha de não mentir, a vida sem mentira é impraticável. Mas esta é uma conversa que talvez possamos ter quando ela crescer e perceba os matizes do que é sermos honestos, sermos caridosos, sermos prudentes, sermos cautelosos, sermos verdadeiros, sermos mentirosos.

Ela divide a questão em ter jeito para mentir e não ter. E nesta redução da realidade, refere-se apenas a conseguir ou não negar os factos. Ou inventar uma história para contar de maneira que nos seja favorável uma situação que nos podia deixar em maus lençóis. Há quem facilmente invente histórias credíveis, ancoradas aqui e ali em elementos de verdade que lhes dão sustentabilidade. Pode ser uma questão de criatividade. Afinal, desde pequenos que nos pedem para inventar histórias. Até há professores que penalizam os meninos por serem “pouco criativos”, querendo com isto dizer sabe-se lá o quê. Tudo e nada. Se forem muito criativos, arriscam-se a ter a composição riscada por ser absurda. Esta capacidade de efabulação requer, pelo menos, uma maneira de olhar para o que nos acontece na vida como narrativas. Tudo é narrativa, tudo é uma história. A vida é feita de narrativas e quem gosta de uma história bem contada sabe que se tem de sacrificar muitas vezes o verosímil pelo inesperado.

Há quem minta compulsivamente, mesmo sem ter jeito nenhum para mentir. Disse-lhe que esses me irritam mais. Ela não compreende porquê. Pergunta-me se não é tudo igual, se uma mentira não é sempre uma mentira. Eu, sem querer aduzir os argumentos que podem defender a mentira, digo-lhe que não. É uma questão de respeito. Uma mentira mal contada, coxa, deslavada, é uma falta de respeito pelo enganado. É dizer-lhe que és tão pouco importante, que nem me esforço para te mentir como deve ser. É chamar-lhe parvo. Uma mentira elaborada, com imaginação, com requintes de sofisticação mostra que consideramos o outro como digno de uma elaboração, de uma super produção. Vês? Montei este cenário todo para ti, para te sentires melhor, não é lindo?

Ela volta a abanar a cabeça. Não, mentir é sempre falta de respeito. Tu é que gostas tanto de histórias bem contadas, que achas isso importante. Rio-me. Olha, se calhar é verdade, se calhar prefiro uma história bem contada, falsa, mentirosa, do que uma verdade deslavada, sem graça, mal pensada, mal executada, uma vida sem cuidado, nem elaboração. Sabe-se lá. Não vou mentir, nem eu sei.

Há quem não goste de mentir e se esforce tanto por não mentir, que acaba o dia a mentir a si próprio. Aliás, nunca mentir aos outros implica uma boa dose de desonestidade consigo próprio.

Como é que estou?

Estás óptima, com bom aspecto. Na verdade, estás horrível, esse cabelo não viu um pente, já te vestias como deve ser, o teu rabo está cada vez maior, mas não quero que te sintas mal, por isso não to digo. Até estava melhor se não tivesse de olhar mais para ti, mas também não to posso dizer.

Onde estás?

A trabalhar.

Como é que estás?

Bem.

Como te sentes?

Não me perguntes o que penso ou sinto. Conto-te só o que faço. Assim, digo-te a verdade.

E há quem pense que tem direito de saber o que os outros pensam.

Em que estás a pensar?

Que és uma chata insuportável e que qualquer pessoa decente deveria ter o pudor de não pedir para olhar para dentro do espaço privado de cada um.

É pior do que entrarem na casa-de-banho sem perguntar. Reservo-me o direito de estar sozinha na casa-de-banho que são os meus pensamentos. Seja para tomar um banho de sais perfumados, seja para outras intimidades. Eu própria peço licença para olhar para dentro de mim.

Ela olha-me, com ar incrédulo. Não percebo, diz contrariada. Qual é o mal de dizermos o que estamos a pensar? Eu não tenho problemas nenhuns em dizer tudo o que penso. Engasgo-me com esta afirmação e decido que está na altura de parar com este exercício a que chamam conversa. O que faço eu a falar com uma pessoa que acha que pode contar tudo o que pensa? Olha, ou és parva… ou és parva. Ou não olhas para a vida. Calo-me. Não lhe posso dizer que a verdade, se existe, é tão assustadora que temos de ter passado muitos níveis para olhar para ela de frente e conseguirmos continuar a viver connosco. Que modalizamos sempre, que mesmo quando queremos dizer a verdade, é aquilo que sentimos naquele momento, o que o outro ouve, o conjunto da interacção de tudo isto. Que não vale sequer a pena dizer o que entendemos por verdade quando o outro não está preparado para fazer nada com essa informação que lhe damos e só a vai usar para se magoar. Que um dia, se ela pedisse licença para entrar no espaço privado daquilo que é a verdade dela, não iria ter forças para viver com o que veria nem para o esforço que essa verdade lhe iria exigir para se tornar outra, com quem pudesse viver melhor. Não lhe digo nada disto, calo-me. Deixo-a pensar que gosto de mentiras. É melhor assim. Afinal, só tenho dúvidas, matizes, incertezas, pontos de sustentação aqui e ali para lhe oferecer em troca das certezas dela. E não se convida assim as pessoas a passear pelo lado selvagem sem lhes oferecer proteção.

RD, 10.09.2011 

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