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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Pessoal e intransmissível

Às minhas queridas irmã e afilhada. Que assim seja. 

Conversávamos sobre sexo. Não uma típica conversa de mulheres crescidas e emancipadas, que gostam de mostrar que o são. Duas mulheres adultas, emancipadas, sim, e uma adolescente. Catorze anos, cheios de possibilidade. A conversa era difícil, o desafio sempre o mesmo. Queríamos ser sinceras, menos do que isso teríamos direito a um encolher de ombros e a um ruído que se assemelha a um som, que pretende ser uma forma de comunicar. Qualquer coisa entre o cuspir e o rosnar. Sabíamos que tinha de ser uma conversa sem tabus e demos por nós sem guião. Habituadas que estamos as duas a conversar sobre estes assuntos e outros sem qualquer reserva, numa linguagem que partilhamos, tínhamos agora de modalizar e de encontrar as formas certas de o conseguir fazer com uma menina. Com corpo de mulher, com hormonas que lhe dizem ser urgente aquilo que as emoções ainda não estão preparadas para viver.

E lá fomos descobrindo caminhos por esta conversa tortuosa, olhávamos uma para a outra e pelo olhar apoiávamos a direção tomada e as palavras escolhidas. Nós próprias fomos descobrindo, enquanto falávamos, o que era importante ou não. Foi mais fácil para as nossas mães: nunca antes de casar e, depois, faz-se o sacrifício, diziam-nos. A obrigação. Agora que escrevo obrigação, vejo como é precipitado e tão pouco justo dizer que foi mais fácil para as nossas mães. Não foi. Foi uma obrigação a vida inteira. A forma que nos dão de conhecermos o nosso parceiro na intimidade, o prazer da descoberta de uma vida a dois, sem interditos, sem mal entendidos, numa linguagem também feita de pele, proibida por uma religião castradora, que penaliza o prazer. Viveram a vida inteira a sacrificar-se, num ritual mil vezes repetido, de falta de prazer, de silêncios pesados, de dúvidas nunca esclarecidas, de equívocos ressentidos. E, as que tinham prazer, tinham de o esconder, sob pena de a alma ser condenada para a eternidade. Antes uma vida de sacrifícios do que comprometer a eternidade.

Dizemos-lhe isto: que a completude de uma mulher passa por poder falar com o seu parceiro do que sente. E que isso só acontece quando há intimidade, quando os dois querem que o outro se sinta bem. Não estamos certas de sermos claras, olhamos uma para a outra e decidimos continuar a tentar. É difícil não cair nos clichés como “o amor é que é importante”. O amor não chega, muitas vezes fica aquém. A intimidade é de uma essência difícil de definir e não tem a ver com o tempo de uma relação. Podemos viver muitos anos com uma pessoa, andarmos nuas à frente dela, e ainda assim não lhes mostrarmos quase nada de nós. A intimidade não é partilhar uma casa de banho, isso é só promiscuidade. Dizemos-lhe que o namorado com quem ela vai fazer amor pela primeira vez não vai ser marido dela. Pode até ser namorado dela por muito pouco tempo, não é essa a questão. Mas tem de ser alguém em quem ela confie, que ela saiba que se preocupa com ela, que seja meigo, carinhoso. Alguém com quem ela esteja suficientemente à vontade para lhe dizer o que sente, o que a assusta, com quem ela possa planear o que vai acontecer, discutir, rir dos embaraços. Explicámos-lhe – espero que o tenhamos conseguido, afinal era esse o desafio – o importante que é ela poder falar com ele do que vai acontecer, do que está acontecer e de como se sente depois. Sem isso, tudo se perde, é escolher um cirurgião para a operar a frio. Dizemos-lhe que a entrada no mundo das mulheres se faz assim, com vontade, com planeamento, com cumplicidade. Não com medo, não às escondidas, não para agradar ao outro, sobretudo não porque às vezes é difícil dizer que não.

Dizemos-lhe que é bom que ele também não tenha experiência. Está calada o tempo todo, atenta, mas aqui levanta a sobrancelha. Mais uma ideia feita, já tantas, catorze anos. Como explicar-lhe que não se trata de saber o que se faz? Como dizer-lhe que nunca sabemos? Que cada pessoa é diferente e as receitas só servem para as máquinas de cozinhar? Tu não és uma bimby, querida, não é deitar os ingredientes e carregar nos botões. A descoberta do nosso corpo, do corpo do outro, é a cada vez um mistério, e o bom, o excecional, os fogos de artifício, dependem do que sentimos, da vontade que temos, da entrega, da pele sempre nova, do entusiasmo renovado a cada toque. Um namorado desajeitado, inexperiente, mas que perceba a importância do momento para os dois, vai tratá-la bem, vai descobrir com ela a magia dos corpos iluminados pelos olhos brilhantes de expectativa. Um namorado com experiência é o quê? Experiência de outras? Ela não é outras. E dela ninguém tem experiência. E a tal experiência pode tornar-se numa exibição – olha como eu sei mexer aqui – e num número de circo. Tentamos explicar-lhe a diferença entre acrobacia e sexo. Os jovens vêem muita pornografia e acham que aquilo é uma vida sexual plena. Muita resistência, muita gente à mistura, não estivessem nus e podia ser uma prova desportiva. Nenhuma de nós, adultas, é ingénua e sabe que, às vezes, as hormonas pedem sexo como desporto. Ou como afirmação. Ou até como domínio. Mas o resultado é diferente. O resultado é sempre menos do que uma relação de descoberta a dois, de partilha, de pele que se reconhece e que se deseja. De gargalhadas partilhadas. Do que se diz com os olhos.

Dizemos-lhe muitas coisas. Algumas pareceram-lhe interessantes, outras não. Diz-nos que uma amiga finge que tem orgasmos para o namorado ficar contente com ela. Quase nos engasgamos e temos vontade de fugir dali a correr as duas, encontramos no olhar da outra a força para continuar a conversa e fingir que não estamos a pensar nas implicações daquele comentário. Dizemos-lhe que isso é absurdo, que ela não ganha nada com isso, apenas começar mal uma relação. Que isso foi o que as avós dela tiveram. Hoje, sabemos que podemos falar do que sentimos e a emancipação feminina talvez seja isso – não o reivindicar o direito aos orgasmos, mas o direito a uma voz, que, se não grita de prazer, fala com o outro sobre o que não acontece e descobrem os dois como pode acontecer.

Percebemos, enquanto falamos, que não é fácil o que lhe estamos a propor. Rejeitar as propostas dos amigos excitados que andam à volta dela. Rejeitar a pressão das amigas. Encontrar o rapaz com quem ela se sinta à vontade e em quem confie, que entre com ela de mão dada no mundo dos crescidos. Seja agora, aos catorze, seja mais tarde. Sempre. A cada vez. E ainda por cima tem de ser seguro. Essa parte é especialmente difícil de vender, não cabe nos sonhos românticos de ninguém. Mais uma vez, a cumplicidade, o riso para ajudar a enfrentar a atrapalhação, a preparação em conjunto, como um projeto. Não tira a excitação, pode aumentar, o mito de que espontâneo é que é romântico levou-nos a tantas à desilusão.
E pode correr mal, é preciso dizê-lo. Muita coisa pode correr mal. E, sabendo-o, basta conseguirem rir-se disso, rirem-se de si próprios, os dois, e começarem de novo. Digo-lhe como ainda hoje me espanta que amigas minhas, da minha idade, façam comentários como “ele não é bom na cama”. Mas o que é ser bom na cama? Respondo-lhes invariavelmente com o comentário mais obsceno que me ocorrer na altura. Para umas será bom na cama um tipo que está cima delas aos saltos durante uma hora, para outras, um pesadelo. Um homem que não se descontrola rapidamente pode não estar assim tão desejoso e talvez seja melhor sentir o desejo do que a performance cronometrada de campeões de resistência. Há muitos argumentos contra este argumento, uns mais científicos, outros mais de taberna, mas cada um gosta do que gosta e ninguém tem nada com o que se passa na cama dos outros. A menos que perguntem. Há quem goste de saber.

Ajudou à conversa termos tido experiências diferentes, até contrárias. Parece de propósito. Uma de nós teve a sorte de começar assim, com direito aos preparativos todos e foguetes e tudo. A outra, cedeu num momento espontâneo de grande amor, dela, e excitação, dele. Passou anos sem saber o que podia ser uma vida sexual em que as palavras têm lugar. Todas, as doces, as obscenas, as que cada um gostar, no fundo é disso que se trata. Não nos tornamos animais quando fazemos amor. Somos nós, inteiros, com as nossas histórias e a história daquela relação, a sentir na ponta dos dedos a pele que vai completar a história dos dois. A falar com os olhos, a gemer palavras de entrega e de posse, a rir em conjunto. Esses momentos são dos dois e não há tempo, nem espaço, nem peso. Nem receitas. Só descoberta e ainda bem.

Ela diz-nos que as amigas lhe dizem que tem muita sorte por ter quem lhe fale destes assuntos, assim. Elas não têm. As mães delas têm a nossa idade. O que se passa? Não falam porquê? Por medo? Nós também tivemos medo daquela conversa, ajudou-nos sermos duas, sermos amigas há vinte anos, sermos as duas muito diferentes na maneira de falar e de viver, sermos família. Mas também tive o medo que tenho sempre com ela e com os meus filhos: o de dar informação a mais. Ou o de ser desonesta e com isso comprometer a ajuda. Mas, tal como ela tem de fazer para se tornar mulher, também nós o fizemos: fomos falando e medindo o efeito das palavras. No fim, sentimo-nos incrivelmente próximas, emocionadas, as três de lágrimas nos olhos, felizes por termos conseguido ser honestas, por sermos mulheres,  por nos termos umas às outras e por haver  homens que sabem que somos sempre mulheres e meninas. 

RD, 19.09.2011

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