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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Pequeno Tratado do Silêncio


(Com música, que é uma bela forma de silêncio. Ou porque fala por nós. E podemos ficar calados. Mas sem imagens. As imagens fazem muito barulho.”Um imperador chinês pediu um dia ao pintor principal da sua corte para apagar a cascata que tinha desenhado nas paredes do palácio, porque o barulho da água o impedia de dormir.”  Mandei cortar o velho mangue. O rumorejar do vento nas folhas não me deixava ouvir a promessa de silêncio.)

Do silêncio eloquente. Calamo-nos porque queremos falar. Mentimos com o nosso silêncio. Tu sabes o que é o meu silêncio. E este sabes é o que tu quiseres. Mentimos. O silêncio que é uma forma de mentir deixa os outros encherem de palavras aquilo que não temos coragem de dizer. O que poderia ser vazio é o espaço que criamos para o tudo, para que os outros façam o nosso trabalho, preencham o silêncio com o que entenderem. Eles que vejam as evidências. Mesmo as falsas. Demitimo-nos de falar, escondemo-nos atrás do silêncio. Ninguém nos pode acusar de ter dito. Todos sabem o que queríamos dizer. Mas não o dissemos.

Do silêncio contido. Calamo-nos porque temos medo do poder declarativo das palavras. As palavras mudam a realidade, é preciso calá-las. Hora da morte: 10h 15. O que antes era ainda esperança, um fio de respiração, calou-se. Temos cuidado com as palavras. Uma palavra a mais, a vida inesperada. Uma palavra errada, a morte que desejámos em silêncio. Somos contidos por natureza e o mundo atira-nos para o barulho e gritam todos tão alto que só a contenção nos deixa ainda pensar. Não fales já. Pensa melhor. Há sempre tempo para falar. O que perdeste por não ter falado? Às vezes, a honestidade.

Do silêncio raivoso. Calamo-nos porque temos medo de ladrar em vez de falar. Ou de morder. Cerramos os dentes, as palavras batem-lhes por dentro, os dentes tremem, mas não se afastam. Elas não passam. Sabemos o poder destruidor que têm. Sabemos que, se abrirmos a boca, podemos arrancar pedaços. De carne, de vida, de integridade. Dói-nos a cara da raiva que calamos. Esperamos que se desfaça na espuma da boca e voltamos a engoli-la em grumos de palavras desfeitas. Se as tivesses deixado sair? Temos de perdoar, foi o que nos ensinaram. E as palavras enjeitadas, raivosas, circulam-nos no sangue, envenenam-nos. Poupaste alguém, fazes sempre o sacrifício necessário. Mesmo que te envenene.

Do silêncio do vazio. Calamo-nos porque não encontramos nada dentro de nós que valha a pena ser. Olhamos para dentro do peito e está tudo escuro, terra queimada, ainda o cheiro acre a cinza, o calor do fogo mal apagado, tudo destruído, já nem o crepitar é som. Apagou-se. Desistimos das palavras. Podemos usar as dos outros e tapar com elas, delicadamente, o que deixou de existir. Mas não são nossas, não nos servem, apenas ocultam dos outros a nossa destruição. Tens pudor, não mostras o teu vazio aos outros. Calas-te. Ou usas palavras que não são tuas. Não precisas de falar, ouve a música. Respira. Deixa-te cair no vazio. Não uses palavras usadas. Fecha os olhos. Respira. 

RD

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