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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Gandalf e a Virgem Maria


Uma amiga diz-me que o boneco do Gandalf que tenho na estante é igual à imagem da Virgem Maria que a mãe lá tem em casa. Pergunto-lhe se são as barbas. Não, não são as barbas. Mas as duas imagens servem o mesmo propósito, diz ela. Tu queres o Gandalf porque ele te dá a força. É para isso que a minha mãe quer a Virgem Maria. Eu encolho os ombros, despeitada. Não aceito que o meu Gandalf seja um amuleto, uma superstição de plástico.

Afinal, não quero diminuir os feitos da Virgem Maria, que foi engravidada por Deus através do Espírito Santo e que deu à Luz o filho do Senhor, milagre que cada mulher reproduz cada vez que tem um filho, já que todos somos filhos d’Ele. Ou que perdeu um filho com 33 anos na cruz, forma cruel de se perder um filho, mas com o consolo de saber que o mundo inteiro iria passar a viver por ele, enquanto muitas mães perdem filhos nos braços sem chegar a vê-los crescer, perdem-nos para a fome, sem os poder alimentar, perdem-nos para a doença, sem os poder curar. E ninguém viverá iluminado pelas imagens destes filhos perdidos, nem a imagem destas mães servirá para dar força a alguma mãe. O sofrimento de uma mãe é único e todas podiam ter a sua estatueta a brilhar no escuro.

Eu escolhi o Gandalf. Porque a condição de mãe não a conquistei, nasceu comigo. E porque a força dele, o que o torna branco, não é ganhar a luta ao mal. É, mas apenas à superfície. Para mim, o que quero é a capacidade que ele tem de olhar para um pequeno hobbit e ver que é ele quem salvará o anel. Não o rei dos homens, que se pode deixar tentar, não o elfo mágico, que nem sempre compreende o coração dos homens. Um hobbit. Pequeno, indefeso. De coração puro. Que encontra coragem onde não a tinha, que luta para além das suas forças, que dá o máximo. E quando já não consegue subir o resto da montanha, pode contar com o ombro de um amigo para o carregar, os dois pequenos, com medo, não desistem. Essa capacidade de ver nos outros o máximo que podem dar é o que eu admiro no Gandalf. E ele não precisa dos seus poderes mágicos para o fazer. Apenas precisa do seu olhar. Sim, e da idade. Com certeza a idade o ajudou a deter o olhar com mais atenção. Ajudou-o a olhar o mal de frente e a aprender que o mal estará sempre lá. Mas não lhe tirou a capacidade de acreditar no melhor de cada um, sem ingenuidades. Ele sabe as sombras no coração dos homens, sabe o medo no coração dos hobbits. Mas escolhe olhar para o melhor de cada um.

E descubro que, afinal, o que celebro não é a magia, não são os poderes especiais. São poderes humanos que me tentam, é a sabedoria do olhar que eu invejo. É o exemplo que quero ver todos os dias, para treinar o meu olhar a dar o máximo. Para olhar com atenção. Quero ser o Gandalf que olha para um mundo à beira da destruição e acredita que os fracos de coração forte vencerão. 

Quero ser o pequeno hobbit e ouvi-lo dizer-me: tens mais coragem do que podes imaginar. Olho para a Virgem Maria e só a ouço dizer: aceita. Aceita. Talvez seja uma lição de humildade, a que ela me quer ensinar, e eu ainda não esteja pronta para a aprender. Mas lembro-me dos pés feridos dos hobbits a subir o monte e acho que não devemos aceitar.

Talvez o Gandalf perca na comparação. Há o facto de não brilhar no escuro. Não ilumina as cenas conjugais no quarto, não faz de luz de presença para as crianças irem à casa-de-banho durante a noite. Mas também não parece um filme de terror, como a imagem da Virgem Maria me pareceu, com os seus poderes fosforescentes, durante os anos da minha infância, quando passava de noite na sala. Ela é jovem, imaculada. Ele é velho, enrugado. E só depois de velho pôde ser branco. Ele luta mesmo quando já tudo parece perdido, não desiste. Ela aceita, em silêncio, que lhe dêem um filho. Que lhe tirem um filho. Chora-o. Mas não luta por ele, não tenta salvá-lo, não destrói quem se atravessa no caminho para o retirar da cruz. Aceita. E aqui tenho de escolher. E o Gandalf vence e continua na minha estante. Não são os fogos-de-artifício. Não são os poderes mágicos. É a humanidade que venero. Aquela que acredita que pode ser mais forte do que a vida, quando a vida conspira contra nós. Não espero o milagre, tenho sempre de contar comigo e com o ombro dos meus amigos. E isso às vezes é contar só com o medo.

E, minha amiga que não gosta do Gandalf, os bibelôs que temos na estante têm uma justificação que faz sentido para nós, têm histórias para contar. Para os outros, que chegam da rua, serão sempre de um gosto duvidoso.

RD, 29.06.2011

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