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quarta-feira, 14 de março de 2012

Pára.

É ali que tu paras. É ali que decides. Sabes, de um saber feito da experiência de milhares de outros antes de ti, de milhares de anos atrás de ti, o que acontece. E ainda assim, a tua decisão, mil vezes testada, mil vezes vivida, não é mais fácil.



É ali que tu paras. Mas sabes que não podes continuar ali parado muito tempo, porque alguém decide por ti, um empurrão apressado e já estás no caminho que não escolheste. O que não seria mau, afinal. Assim, alguém teria decidido por ti e tu poderias ilibar-te da decisão, das consequências. Sabes a cobardia da solução, mas ali, onde estás, até tu consegues aceitar ser cobarde. E no entanto, ninguém chega. E tu tens de decidir ou então  a vida vai passar por ti e tu ali parado. A conjecturar. Como seria se tivesse escolhido o outro caminho?

A dicotomia é banal: o seguro, o conforto, o esperado de ti. O que tu controlas e não te ameaça. O que é planeável e previsível. Ainda assim, não é fácil e não aceitas que te julguem por teres escolhido o mais fácil, tal como tu julgaste muitos antes de ti. O conforto paga-se sempre muito caro, deixas ali, naquele lugar, naquele momento, a parte de ti que sabe voar. E escolhes ficar preso ao chão para sempre. E é legítimo que o faças, consegues defendê-lo. É isso que garante o funcionamento do que alguém decidiu dever funcionar assim. É isso que garante a segurança dos que te rodeiam e dos que dependem de ti. É isso que os mantém presos a ti e e ao chão, numa cadeia interminável de segurança, todos amarrados uns aos outros.

Gostavas de  saber se toda a gente terá passado por ali, em algum momento da vida. Gostavas de ver os dados estatísticos. Talvez pudesses tomar uma decisão fundamentada nos dados.

E é tão fácil escolher o outro caminho, é o mais fácil de escolher. É fácil justificar, também. Tu mereces. Sempre fizeste o que esperavam de ti, até melhor. Toda a gente tem direito a tentar aquele caminho, uma vez que seja na vida, milhões de vezes na vida do planeta. E sais de ti e és maior e sabes o que é voar e viver com os pés libertos do chão. E tudo é luminoso e inteiro e pleno. Como não saber o que é sentir-se inteiro uma vez na vida?

Mas também sabes que terás de voltar. E confessas, afinal, que não é a primeira vez que estás ali e que já escolheste aquele caminho antes. E que te lembras da leveza, todos os dias. Tal como te lembras da pele esfacelada quando voltaste ao chão, das feridas em carne viva que te deixaram cheio de marcas. Da dor do peso. 

Lembras-te disso tudo e ainda pensas em dar um passo e experimentar de novo. Estará a pele suficientemente forte? E assim que começares a senti-la rasgar-se? Aguentas a dor do peso de novo? Sim, tu sabes que, por aquele caminho, tens sempre de voltar atrás. Os outros não te deixam lá ficar. Se deixassem, teriam todos de ir também.

Tudo isto tu sabes e por isso continuas parado. Sabes demais. Talvez só não saibas ir além do medo. 

RD, 14.03.2012

quarta-feira, 7 de março de 2012

Sabes-me a sal

Sabes-me a sal. Na tua pele fica o salgado de todos os mares em que nadaste, tu e água, numa dança antiga, feita pelos deuses para nos deixar sair por momentos da nossa obrigação de andar. Tu nadas e a água nada contigo, acaricia-te a pele, deixa que entres nela como se sempre te tivesse esperado. Na água, transformas-te e já não distingo onde um e outro acaba e começa.


Sabes-me a sal. O sol seca-te, o sal faz uma película branca que percorro com a ponta dos dedos. Os grãos de areia quente ficam agarrados à minha pele e são meus. O que há instantes era teu entra-me agora na pele. O calor do sol na tua pele e a areia morna transformam em névoa tudo o que nos rodeia e somos só nós os dois, pele, areia, sal.


Sabes-me a sal. Mesmo quando já nos afastámos do oceano e a água doce, ciumenta, tentou tirar-to da pele. O algodão da toalha arranha-te sem piedade, quer tirar-te aquele último grão de areia que se prendeu ali na tua pele. Mas ele resiste e fica lá, aguarda pelos meus dedos, para lhes dar uma última memória do calor.

Sabes-me a sal. Muito tempo depois de termos visto o mar é a sal que me sabes. Muito tempo antes de te ver, é o sal que antecipo. Não um sal de lágrimas, porque essas se perdem na imensidão da água. Não um sal artificial, desinfetado, pronto a consumir. Não, um sal em bruto, puro, inteiro. Um sal saído das pedras e embalado pela água. Um sal que só se mistura na tua pele e em todo o resto é insolúvel. Sabes-me a sal.

RD, 07.03.2012

sexta-feira, 2 de março de 2012

A arte de reciclar


Abriu o velho portão - se é que se podia chamar portão ao conjunto mal amanhado de peças que não foram feitas para estar juntas. As placas de metais diferentes agarradas a tábuas de madeiras das mais diversas origens misturavam-se com a cor de tintas de muitas décadas agarrada às mãos dele. Como se as mãos dele fossem também um dos materiais que tinha domado ao longo da vida, e se tivessem tornado parte deles. Tortas, sujas de manchas que já nada lavava, marcadas de cortes de um ou outro ferro mais resistente a ser dobrado. 
Lá dentro, a luz era pouca, mas ele estava habituado a trabalhar naquela semi-penumbra, com o pó filtrado pelas gretas nas paredes e o cheiro intenso a óleo, tinta, limalha.
Toda a vida reciclara objetos. Muito antes das preocupações passivas que agora ocupavam toda a gente. Nunca deitara uma lata fora, podia cortá-la a meio e usá-la em inúmeras novas construções. Tinha sido alvo de chacota mais vezes do que se podia lembrar. Diziam que as suas construções eram bizarras,  que não tinham utilidade, porque, mesmo que funcionassem, ficavam tão feias e desconjuntadas que ninguém lhes via utilidade para além do aspeto mal conjugado. 
Agora veriam. E viriam ter com ele. De todo o lado. Porque o que ele tinha conseguido reciclar mais ninguém conseguira ainda. E o mundo estava a ficar cheio até ao insustentável de amores no lixo. Não havia sistema de relações humanas que suportasse tanto desperdício e o tempo de uso era cada vez menor. Já não chegava ao fim da garantia. Dois anos era já um amor saudável e robusto, muitos ficavam pelo caminho. Não sobreviviam. E já nem eram só os mais fracos que pereciam. Ultimamente, parecia-lhe já epidémico. Mesmo aqueles que pareciam eletrodomésticos alemães, feitos para durar uma vida, ou pelo menos 20 anos, que vinte anos já conta como uma vida, mesmo esses avariavam. Paravam. Deixavam de funcionar. Eram abandonados à beira da estrada pelos mais apressados, recolhidos pelos mais conscienciosos. Um serviço de recolha de amores avariados, precisava de acrescentar isso à sua lista. 
E todos viriam. Ela já não me ouve. Um ouvido para substituir. Ele já não me toca. Umas mãos para arranjar. Ela não tem tempo para mim. Vejamos o colo. Tem o colo avariado, qualquer amor precisa de um bom colo. Como precisa de ouvidos que funcionem bem. E de mãos que saibam sentir,  excitar e acalmar e devolver a vida ao que está adormecido. 
Como as dele. Tinha trabalhado as suas mãos nos materiais em que tocara e todos tinham saído transformados, materiais e mãos, a partilhar a dureza de uns, a agudeza de outros, o calor daquelas que agora estendia para dar vida.
Olhou para a prancha de trabalho. Agora todos viriam. Só precisava de lhe tocar com as suas mãos e fazê-la acordar, estremunhada, o sorriso quente, a antecipar o desejo dele, menina de novo, a enrolar-se mulher nele. Tinha a certeza de que resultaria. O aspeto não era bonito. Tinha substituído cuidadosamente todos os pedaços nela que deixaram de funcionar. Por metal, onde precisava que ela fosse mais resistente. O metal quente misturava-se na carne harmoniosamente. Por vidro, onde precisava que ela fosse mais transparente. Por madeira, onde a queria mais suave. Reciclara o seu amor. Agora bastava tocar-lhe e tinha a certeza de que ela acordaria e seria menina de novo, os olhos de vidro brilhantes de amor por ele, a garganta de madeira e cordas a ronronar de vontade de o receber. O seu amor viveria de novo, ele conseguia reciclar tudo.


RD,  02.03.2012

A arte de reciclar


Abriu o velho portão - se é que se podia chamar portão ao conjunto mal amanhado de peças que não foram feitas para estar juntas. As placas de metais diferentes agarradas a tábuas de madeiras das mais diversas origens misturavam-se com a cor de tintas de muitas décadas agarrada às mãos dele. Como se as mãos dele fossem também um dos materiais que tinha domado ao longo da vida, e se tivessem tornado parte deles. Tortas, sujas de manchas que já nada lavava, marcadas de cortes de um ou outro ferro mais resistente a ser dobrado. 
Lá dentro, a luz era pouca, mas ele estava habituado a trabalhar naquela semi-penumbra, com o pó filtrado pelas gretas nas paredes e o cheiro intenso a óleo, tinta, limalha.
Toda a vida reciclara objetos. Muito antes das preocupações passivas que agora ocupavam toda a gente. Nunca deitara uma lata fora, podia cortá-la a meio e usá-la em inúmeras novas construções. Tinha sido alvo de chacota mais vezes do que se podia lembrar. Diziam que as suas construções eram bizarras,  que não tinham utilidade, porque, mesmo que funcionassem, ficavam tão feias e desconjuntadas que ninguém lhes via utilidade para além do aspeto mal conjugado. 
Agora veriam. E viriam ter com ele. De todo o lado. Porque o que ele tinha conseguido reciclar mais ninguém conseguira ainda. E o mundo estava a ficar cheio até ao insustentável de amores no lixo. Não havia sistema de relações humanas que suportasse tanto desperdício e o tempo de uso era cada vez menor. Já não chegava ao fim da garantia. Dois anos era já um amor saudável e robusto, muitos ficavam pelo caminho. Não sobreviviam. E já nem eram só os mais fracos que pereciam. Ultimamente, parecia-lhe já epidémico. Mesmo aqueles que pareciam eletrodomésticos alemães, feitos para durar uma vida, ou pelo menos 20 anos, que vinte anos já conta como uma vida, mesmo esses avariavam. Paravam. Deixavam de funcionar. Eram abandonados à beira da estrada pelos mais apressados, recolhidos pelos mais conscienciosos. Um serviço de recolha de amores avariados, precisava de acrescentar isso à sua lista. 
E todos viriam. Ela já não me ouve. Um ouvido para substituir. Ele já não me toca. Umas mãos para arranjar. Ela não tem tempo para mim. Vejamos o colo. Tem o colo avariado, qualquer amor precisa de um bom colo. Como precisa de ouvidos que funcionem bem. E de mãos que saibam sentir,  excitar e acalmar e devolver a vida ao que está adormecido. 
Como as dele. Tinha trabalhado as suas mãos nos materiais em que tocara e todos tinham saído transformados, materiais e mãos, a partilhar a dureza de uns, a agudeza de outros, o calor daquelas que agora estendia para dar vida.
Olhou para a prancha de trabalho. Agora todos viriam. Só precisava de lhe tocar com as suas mãos e fazê-la acordar, estremunhada, o sorriso quente, a antecipar o desejo dele, menina de novo, a enrolar-se mulher nele. Tinha a certeza de que resultaria. O aspeto não era bonito. Tinha substituído cuidadosamente todos os pedaços nela que deixaram de funcionar. Por metal, onde precisava que ela fosse mais resistente. O metal quente misturava-se na carne harmoniosamente. Por vidro, onde precisava que ela fosse mais transparente. Por madeira, onde a queria mais suave. Reciclara o seu amor. Agora bastava tocar-lhe e tinha a certeza de que ela acordaria e seria menina de novo, os olhos de vidro brilhantes de amor por ele, a garganta de madeira e cordas a ronronar de vontade de o receber. O seu amor viveria de novo, ele conseguia reciclar tudo.


RD,  02.03.2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

As mães têm sempre razão


As mães têm sempre razão. Vemos o ar descrente com que os nossos filhos olham para nós quando lhes explicamos o perigo do que querem fazer e sabemos. Sabemos que as nossas mães tiveram sempre razão. Mesmo que os desígnios delas permaneçam insondáveis, tocamos a percepção de uma sabedoria maior, feita do conhecimento da dor, e que nos quer preservar dela. E que sabe sempre o que é melhor para nós, mesmo que pareça contrário ao nosso projecto de vida. 
Está determinado que a evolução se faça assim: crescemos a precisar de nos distanciarmos, de construirmos o nosso próprio projecto e às vezes é tão difícil percebermos que projecto é esse, que só o conseguimos construir na oposição ao que esperavam de nós. A mudança pode ser evolução tranquila, só medida em séculos ou numa pequena alteração na organização familiar, ou pode ser revolução inesperada, como se as duas tivessem a mesma raiz e revolução fosse evolução redobrada. Como se evoluir e revoltar-se não fossem afinal movimentos distintos. Com a constante de se fazerem a partir ou contra um mesmo ponto de referência, neste caso, a mãe. 
Ela olhou para nós com a atenção que as mães olham, durante horas, dias, meses, anos de um calendário distante resumido numa palavra: infância. Conhece-nos os sinais na pele, conhece-nos o desenho do cotovelo, o sítio em que o cabelo nasce na nuca. Lavou-os, secou-os, tratou-os durante anos. E, se ficou aliviada quando começámos a tratar da nossa própria higiene, por ter ganhado aqueles minutos para ela ou para as tarefas dela, começou a sentir o afastamento de um corpo que cresce e se esconde para crescer. Não deixou, no entanto, de nos olhar nos olhos. E de ver neles a alegria e de recear o momento em que a alegria acabe. Quem dera poder agora pôr-te um creme que te aliviasse, um penso rápido que tapasse o buraco. E de ver neles a dor, que a faz desviar o olhar, impotente, ela, a mãe, de quem a nossa vida dependeu e agora tem de aceitar que as mãos dela não a podem aliviar. Deixa-me massajar-te a barriga, talvez te alivie o coração.
A nossa mãe pode estranhar já não gostarmos daquela comida que nos confortava os dias especiais. Pode não compreender que tenhamos deixado de gostar de ir visitar as tias. Pode não reconhecer os confortos que escolhemos para nós como sendo reconfortantes. Mas conhece os nossos mecanismos mais profundos, aqueles que os outros demorarão a perceber. Conhece a nossa forma de lidar com a frustração. Conhece o ponto em que a nossa determinação acaba. Sabe até onde vai a nossa força. Determina com exactidão o momento em que estaremos cansados e rabugentos, em que não vale a pena argumentar, o ponto em que ela sempre perdeu e nós ganhámos o prémio de fazermos valer qualquer coisa pouco importante, mas que era apenas o exercício da nossa vontade. 
Mesmo que deixe de saber dialogar com isso, mesmo que não conheça os mecanismos para nos fazer lutar com a frustração, para nos insuflar mais um bocadinho de vontade quando ela acaba, mesmo que não encontre sequer as palavras para dizer: reconheço-te aí onde estás. É o mesmo sítio onde estavas quando caíste vezes sem conta da bicicleta. É o mesmo sítio onde estavas quando tentaste que as palavras sozinhas se explicassem para ti. É o mesmo sítio onde estavas quando os teus amigos te disseram que já não queriam ser teus amigos. Mesmo que fosse só por dez minutos. É o mesmo sítio onde estavas naquele dia em que vieste para casa e a dor já era nos teus olhos e não nos teus joelhos. Se elas encontrassem as palavras para nos dizer isto seria talvez demasiado fácil. Porque perguntaríamos imediatamente: Sabes? Então diz-me como faço para sair daqui. E elas já não podem saber tanto. Ou sabem, mas nós não as podemos ouvir. Seria demasiado fácil. Talvez as frases sejam as mesmas: não desistas, tu consegues. Não faz mal se falhares. Levanta-te e tenta de novo, tu vais conseguir. Não tenhas medo. Não te escondas. Eu estou aqui. Mesmo quando as mães deixam de estar ali. Estão dentro de nós os gestos que elas fizeram. Estão dentro de nós os buracos dos gestos que não souberam fazer. 
Talvez seja demasiado, talvez seja exagero freudiano dizer que nos marcam assim tanto. Afinal, nós crescemos para sermos auto-suficientes e essa auto-suficiência deve incluir a capacidade de olharmos para os nossos mecanismos de defesa e melhorá-los. Para os nossos mecanismos de entrega e melhorá-los. O determinismo maternal pode ser torneado pela nossa vontade em fazermos diferente daquilo que nos ensinaram. As marcas podem não determinar a nossa vida, tal como podemos decidir desobedecer à voz do GPS e tentar um caminho alternativo, lembrando-nos que já houve um tempo em que era natural encontrarmos o caminho sozinhos. Mas as marcas são isso mesmo, são aquilo que fica, o traço, o sinal visível, marca-se a pele, marca-se a alma, fixa-se, delimita-se. As marcas são também fronteiras, margens entre aquilo que nos deram e aquilo que procurámos.
Deixamos marcas. Vivemos com as marcas. Delimitamos o espaço, o que é nosso, roubado aos outros, negociado, conquistado. E passamos esta nossa maneira de entender as fronteiras para os nossos filhos. Como ontem, quando eu disse ao meu filho que era natural ele ainda não conseguir resolver tudo sozinho e que a mãe ficava contente por poder ajudá-lo. E se a mãe não o pudesse ajudar, que os dois podíamos ir à procura de quem nos ajudasse. Ele agradeceu- me com os olhos. E hei-de ensiná-lo a encontrar as palavras para o dizer, mais tarde, para o caso de haver quem não saiba ler-lhe nos olhos e precise que ele o diga: ainda bem que estás aí, ainda bem que não tenho de resolver tudo sozinho. Ela, a irmã, para não fugir às marcas de género nem tentar um discurso politicamente correcto que diz que todos somos iguais e a socialização é que nos diferencia, encontrou mais cedo as palavras para dizer o que sente: se eu estivesse mesmo no teu coração, compreendias como é que me sinto quando falas assim zangada comigo. Formulação incrível de uma criatura tão pequena para pedir à mãe que a tranquilize e lhe diga que a ama, mesmo quando se zanga com ela. Por enquanto, ainda sei as palavras. Perdi-as para a minha mãe, encontro-as todos os dias para os meus filhos. E um dia, sem mãe e com filhos em evolução ou em revolução, serei eu sozinha, a encontrar as palavras para falar comigo e para me dizer: tu consegues, eu estou aqui. Nunca estás sozinha.
As mães têm sempre razão.

RD, 23.02.2011

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Do peso e da leveza


Ao chegar aos quarenta, apercebo-me de que, afinal, ainda não cresci nada. Talvez venha daí a minha recusa em querer ter quarenta, porque isso significa que vou ter ainda de aprender muito, e aprender dói sempre tanto e eu tenho tanto medo da dor, que preferia pensar que posso ficar sempre inocente e sempre pequenina e que nada me pesa.

Em véspera de crise de idade, fico sobretudo confusa por ter deixado de perceber o que é leve e o que é pesado na minha vida. E isso desorganiza-me tanto, que preciso de o disfarçar com grandes birras de diversos tipos, para esconder a causa real do mal-estar. Nunca achei que o mundo fosse a preto e branco e cedo me interessei pela natureza complexa das pessoas e das coisas. Quem gosta de ler acaba por fazê-lo mesmo sem o querer. Ninguém é totalmente mau e impossível de ser amado, como ninguém é puramente bom e digno da nossa profissão incondicional de fé. Somos isto e aquilo, bons e maus, feios e bonitos e há momentos em que somos o tudo ou o nada e nem sequer fizemos por isso.

Mas (hoje é com mas). Mas sempre separei na minha vida o que punha do lado do peso e o que punha do lado da leveza. Sem julgamentos de valor ou de beleza associados. Apenas aquilo que me era leve, que me fazia leve, separado do que me prende ao chão, do lastro que carrego.

Não era uma separação simples. Não se tratava de separar trabalho de férias, por exemplo. No trabalho, há momentos de extraordinária leveza, de pura criação, de grande gratificação. Nas férias, e apesar de viver para elas, há momentos de total sacrifício ao que esperam de nós, à cor que devemos ter, às horas de conversa banal que devemos aguentar. Mas (outro mas) era uma separação natural, essencial. O que consigo, torna-me leve. O que faço mal, pesa-me.

Neste momento, não sei e vou ter de o aprender até à próxima semana, porque não quero entrar nos quarenta tão despreparada. Consigo resolver problemas que achava que me fariam fugir e, no entanto só me pesa o que tive de fazer para o conseguir. Não consigo corresponder a expectativas que me disseram ter a meu respeito e sinto-me mais leve por isso. As minhas relações de amizade são a leveza de uma alegria descontraída, sem protocolo, e são uma obrigação de uma resposta sempre em falta. O meu país, a minha casa, a minha família são a leveza do que conheço, confio e faz parte de mim sem esforço. Mas são o peso da minha ausência, o que não faço porque não estou. Este país, esta casa, esta família são a leveza do que é novo e todos os dias diferente. E são o peso do que não tem a sustentação  do apoio de todos os que aqui não estão.

E nesta desorientação de pesos, vivo numa bipolaridade constante que me é estranha, porque tudo está fraturado e nada é inteiro. E não há leveza por metade. Nem meio peso.  E a divisão não pode ser artificial. Ou pode, mas não é minha. Talvez tenha de ir aceitando que nada é inteiro e que isso é a vida. Feita de meios pesos, de meias levezas. Pedaços de leveza que de repente ganham peso. Pacotes pesados que, por momentos, perdem a substância e me elevam. Se fosse pessimista, bastar-me-ia aceitar e dizer: eu já sabia que isto ia acontecer. Otimista que sou, vou ter de trabalhar muito para esta nova organização que se avizinha. Vou ter de aprender a insustentável leveza dos quarenta. 

RD, 19.02.2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Os pilares


Um dia, numa das muitas e belas dedicatórias que Saramago fez a Pilar, escreveu: A Pilar, minha casa. Ainda hoje me dói a beleza deste amor, numa fórmula tão pequena e tão pungente. Completa, perfeita. Para além do bonito que é dizermos a alguém que é a nossa casa, dizendo-lhe com isso que a nossa casa é onde o outro estiver e em mais nenhum sítio do mundo, há ainda o pilar e a casa.
Não vemos os pilares das nossas casas. E, no entanto, derrocavam sem eles. Os pilares são a fundação sobre a qual construímos o que somos. O que nos apoia, o que nos sustenta, o que há de mais profundo e resistente em nós.

Nada os abana, reconstruímos uma casa, deitamos as paredes abaixo, queremos tudo novo. Mas os pilares continuam lá. E tapamo-los com cimento ou betão ou lá o que se usa para fazer paredes. Vidros enormes, transparentes, que refletem o mundo lá fora e a nossa vida cá dentro. Pedras magníficas que parecem encerrar nos veios a vida da terra de onde foram extraídas. E os pilares sempre tapados.

Não passamos a mão pelos pilares para sentir a textura da madeira, o frio da pedra, o corte do vidro. Não nos encostamos a eles para descansar. Para isso temos o sofá, tão confortável, um modelo moderno, uma chaise longue, todos nós rebolados no conforto de almofadas, lambuzados em chocolates e filmes pagos sem sair de casa. E esquecemo-nos, por momentos, de que eles estão lá, os pilares.

Só se eles falharem lhes sentimos a falta. Não há estrutura que aguente. E nós vamos por ali abaixo com a pedra rachada, os vidros mágicos transformados em lâminas de sangue, a madeira em armas de arremesso, tudo cai em cima de nós e tudo se afunda connosco.

Os pilares estão lá. Silenciosos. São o que nos aguenta, quando achamos que tudo se afundou. São o que nos dá segurança para, aí sim, nos agarrarmos a eles e nos levantarmos e começarmos de novo. Só eles viram a queda, só eles sabem como ficamos quando somos entulho. E aguentam e continuam lá. Para começarmos de novo, para este esforço sempre renovado de fazer melhor, uma casa de palha, uma casa de paus, uma casa de tijolos. Com pilares.

Os meus são quatro, só conheço esta estrutura quadrangular. Confiança. Amor. Alegria. Discernimento. Sobre eles reconstruo a todas as vezes o edifício frágil que é a minha interioridade feita de belas arquiteturas, tortuosas, algumas, elegantes, outras, uma curva aérea do Niemeyer, uma linha pura do Siza, tudo dentro de mim quando quero ser mais leve e mais alta e maior. Porque tenho os meus pilares. Eles estão lá. Mesmo quando os tapo e os escondo, ou prefiro fingir que não preciso deles. E são pessoas, quatro, cada uma delas com a sua missão pesada de aguentar os meus exercícios cada vez mais loucos, cada vez mais altos. E aguentam, e eu cresço e não tenho medo da queda.

Eu sei que também sou um pilar para cada um deles. Se calhar, não o mesmo, se calhar não o que eles queriam. Mas sou a certeza de alguma coisa para alguém, e a certeza de uma coisa boa que o ajude a elevar-se, nem que seja sem tirar os pés do chão.

Aos meus pilares, a minha casa. 
RD, 07.02.2012