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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Eu sou a fúria


Destruo, mato, nada fica de pé, nada vive. Tudo é cinza e sangue e escuridão quando me afasto. Arrasto os pés, cansada e não olho para trás. Não preciso, porque carrego comigo o vórtice da destruição que ainda dança dentro de mim.

Deixo cair a espada na pedra da entrada e tu voltas-te para me olhar. Vês o sangue e a terra queimada que se agarram à minha pele. Sentes o cheiro da morte e o sabor da amargura que trago na boca. E viras-me as costas. Sei que esta é a única visão de mim que não suportas e não ta imponho. Sigo para o quarto do banho, onde deixo cair a armadura. Dispo-me e sei que tenho pela frente longas horas de limpeza. Lavo-me e esfrego-me com o cuidado e a determinação de quem quer apagar as imagens da memória, todas. Os gritos, a impossibilidade de parar, o ter de destruir tudo até ao fim, mesmo quando as forças começam a faltar e a hesitação já deixou um lastro de sombra dentro de mim. Acabei o que comecei. Agora lavo-me. Na escuridão, porque nada do que foi pode ver a luz do dia. A pele já irritada pela insistência pede-me que pare. Agora é só água. Muita água para me lavar por dentro, para me limpar do que acabou e por isso não pode continuar a existir nem apenas dentro de mim.

Quando tudo me parece limpo, seco-me, ajoelho-me no chão e choro com a cabeça nas pernas. Choro durante tanto tempo que adormeço de exaustão. É um choro limpo, já sem imagens, nem sons. Apenas a dor pura. O cansaço da fúria e do choro dão-me horas de sono profundo, e assim encolhida nasço de novo. Visto uma túnica leve que me tapa os pés feridos. Descalça percorro os corredores ainda adormecidos. Entro no quarto das crianças e beijo-lhes os cabelos a cheirar a sonhos. Digo-lhes ao ouvido: durmam descansados, a mãe matou os monstros.

Vou ter contigo. Sei que me esperas. Paro para dar um nó de cabelo no caule de uma flor. Quero que me vejas assim como sou, a cada vez menina a querer sentar-me no teu colo. Olho para ti. Estás distante.

Tu és a força. Mas sei que ainda não é o tempo. Afasto-me para as janelas, abro-as de par em par e o sol nasce.

Eu sou o sol. Morno, ensonado, derrete o gelo, afasta o frio e as flores viram-se para mim. Sou de novo a criação. Agora posso olhar-te.

Sento-me à tua frente e sinto formar-se na tua boca a pergunta. Sabes que outros antes de ti, durante séculos, a fizeram. Sabes que os homens apenas podem desviar os olhos quando as mulheres precisam de destruir. A nossa não é uma luta com regras, com códigos de honra, um desporto de cavaleiros que se matam por território, fama, poder. A nossa nem sequer é luta. É destruição. Sem regras, sem que se possa falar dela, sem história. É a fúria solta até à extinção da ameaça invisível aos vossos olhos. Viram as costas por pudor. Se olhassem, não nos conseguiriam ver assim, agora sol e flores, criação e paz. E sabem que uma sem a outra não existe. Olhas para mim com a pergunta nos olhos. Paro-te as palavras com os meus olhos, já vulcão, chama que molda a lâmina, lâmina que corta e destrói. A pergunta fica por fazer e eu posso voltar para a força dos teus braços. A resposta, durante séculos, tem sido sempre a mesma.

RD, 26.09.2012

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Para ti criarei um dia puro


Quero oferecer-te um dia puro. Um dia em que os dois possamos abrir os olhos e olhar para o outro com os nossos sentimentos acabados de nascer. Sem mácula, sem receios, só os nossos olhos suspensos um no outro e sem o passado que frustrámos, o futuro que desconhecemos. O momento da criação, repetido no teu dia puro. 

Antes de nos termos magoado. Antes de nos termos mentido. Antes de termos desviado os olhos pela primeira vez, por não aguentarmos a verdade nos olhos do outro. Os dois, de cabeça erguida, no momento primeiro de nós, os outros excluídos, as ausências de fora, o telefone que não tocou esquecido, todas as palavras que dissemos a mais, todos os silêncios com que nos agredimos, de fora. 

Quero oferecer-te um dia puro. Sem a primeira vez em que gritámos palavras de ódio, sem a primeira vez em que calámos palavras de amor. Todas as dores, todas as nódoas negras, todas as marcas, as cicatrizes fora do nosso dia puro. Sem as rugas que marcam a pele, sem o peso do mal que nos fizemos. Tudo jovem, fresco, novo e cheio de potência. 

Eis o teu dia puro, o momento da criação. O momento em que dentro de nós tudo se encolheu e expandiu por reconhecer o outro. O momento que a minha pele e a tua deixaram de conhecer fronteiras e o território comum que era nosso foi marcado apenas pelo espaço dos outros. O momento em que não precisámos de palavras, de justificações, de desculpas. Confiança no que nascia, na força do que crescia, sem espaço para dúvidas nem para inseguranças – é esse o momento a que volto para te criar um dia puro. 

E talvez ele não seja real. Talvez nunca mais tenhamos um dia puro. Porque não seríamos tu e eu e o que vivemos e destruímos e criámos, já não puro, já consertado, mas ainda assim cheio da vitalidade do que se transforma. Podemos viver o dia puro que te quero oferecer, mas sabemos que é uma criação, porque esse dia nunca mais. Nós não somos os mesmos e deixar o que fizemos de fora do nosso dia puro é tentar a pureza aos pedaços. 

Podemos viver o dia que temos, sabendo que foi consertado. Que não é perfeito, mas é inteiro, tu e eu, as nossas fraquezas e as nossas glórias, as nossas lágrimas e as nossas gargalhadas, as palavras que dissemos e as que calámos. E desisto de te criar um dia puro. Para ti criarei um dia inteiro. 

RD, 08.08.2012

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Não vá vir a fome, não vá vir a guerra.

Ao meu amigo Zé Augusto, dono da primeira frase deste texto.

Não há maior crueldade do que deixarmos vir até nós alguém, seguro e digno, sabendo que não temos nada para lhe dar. E no entanto sentimo-nos confortáveis ao fazê-lo. Sentados, de perna cruzada, encostamos as costas à cadeira para fixarmos a ilusão de que o ato que vamos cometer não contém vacilação. Sorrimos e estendemos o braço, damos a mão, puxamos para junto de nós quem decidiu, na posse de toda a sua vontade, que quer vir para junto de nós. E na ilusão que criámos podiam ter entrevisto que o papel que lhes temos destinado é só esse: o de assumirem a sua vontade para vir até nós, seguir um guião mil vezes representado, sucesso de bilheteira de séculos. O papel que lhes destinamos é vazio de conteúdo. Peça igual a tantas peças numa construção que é nossa, que não reconhece rostos nem vozes.

Não temos nada para dar. E no entanto, estendemos a mão. Não vá vir a fome, não vá vir a guerra. Mandamo-las embora porque precisamos de correr as cortinas, limpar o palco, não estava suficientemente bem, não era bem aquele tom. Mas se o Hamlet foi tantas vezes encenado, porque não posso ser eu a Ophelia? Só mais uma, entre tantas? Não podes, não saiu bem, e a Ophelia nunca é a mesma, mas tem de ser cada vez mais perfeita e tu não acrescentaste nada à anterior. Mas se ela morre afogada, mil vezes afogada... Ainda assim. Ou por isso mesmo. Tens de ir embora, o que tinha para ti já não é, serviu-me para imaginar o que poderia ser melhor e diferente, mas não eras tu. Era o inefável, o que eu criei na minha cabeça e que quis preencher contigo, para ver se calhava. Se por acaso. Um golpe da fortuna. E agora? E agora vais. Agora não tenho nada para ti, nunca tive, só esta vontade de ver se encaixavas ali, naquele pedacinho da minha elaboração que precisava de uma cara. Mas não posso ficar? Se não fizeres barulho, fica por aí. Não vá vir a fome, não vá vir a guerra. Ficas ali na prateleira, ao lado daqueles enlatados, tu própria agora um enlatado.

E voltamos a caçar. Precisamos de mais, de melhor, não queremos usar os enlatados guardados no fundo da despensa, a carne tem de ser fresca, outra cara, outra voz, as mesmas palavras, a peça é sempre a mesma e sempre nova, desta vez tem de sair certo, é naquele tom que aquela frase tem de ser dita ou fecha-se o palco e deixa-se o vazio reinar. Acaba-se já aqui o que soa mal, o que não é perfeito não há de ser repetido, já é mau que tenha sido dito uma vez naquele palco que escolheste para ver encenar a tua vida.

Sentamo-nos mais uma vez na cadeira do realizador e estendemos a mão. E se não vier ninguém, já te perguntaste? Não. Sabes que virá sempre alguém. Vêm porque acham que são elas que vão conseguir acertar no tom perfeito, tornar a tua construção única, a peça finalmente encontrada depois de tanto procurar. E não percebem que nunca serão elas porque és só tu e só precisas de ti e de ir experimentando rostos em fatos diferentes para te distraíres enquanto elaboras na sofisticação crescente do teu cenário. Tu crias e tu destróis. Tu iluminas a boca de cena e tu fechas os cortinados. E mesmo quando o afirmas, riem-se, seguras, a dignidade intacta de quem ainda não viu as luzes quando se apagam e o vazio do que tens para lhes oferecer. Todas irão. Até as que te amaram para conseguirem ficar. Amaste-as por isso, mas ainda assim notaste o momento primeiro da fratura, ínfima, maior do que tu, depois, prestes a engolir-te, quando, naquele momento, sentiste que não era ela, nenhuma delas, com o seu amor enlatado, pronto a servir, não vá vir a fome, não vá vir a guerra.

Porque és sempre só tu. Com as tuas alegrias e tristezas, com os teus momentos inspirados e as tuas banalidades. É sempre, só, sobre ti. Nenhuma delas pode tomar o lugar que é teu e nenhuma se pode comparar a ti.

Porquê deixá-las vir, seguras e cheias de dignidade, para as deixar ir destruídas? Porquê a crueldade? Tens de te alimentar e nunca se sabe. A fome pode vir. A guerra pode vir. Precisas delas e precisas dos teus enlatados. 

RD, 26.07.2012

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Das rainhas e das coroas


Cheguei ao pé de ti ensopada em sangue e lágrimas. Tu pegaste-me ao colo, despiste-me devagar, a soltar a roupa como se tivesses medo que a pele viesse atrás. Lavaste-me com o cuidado que se dedica a um pequeno ser frágil. As tuas mãos de homem tornaram-se leves e suaves. Dedicaste horas a lavar-me, um pano macio, a água tépida. Secaste-me e sentaste-me entre as tuas pernas para me escovar os cabelos. Tiraste os espinhos que se enrolavam nos nós, tiraste as ervas secas. No fim, só cabelo a cair-me nas costas.

Deste-me água como se eu me tivesse esquecido de como a beber. Eu vi todos os teus gestos, mas olhava a distância. Perdida ali onde te encontrei, perdida onde me perdi. Tu falavas comigo devagar e eu não ouvia o que me dizias.

Deitaste-me na tua cama e amaste-me. Sempre devagar, a vigiar cada pestanejar meu, a vigiar a minha respiração. Com as tuas mãos percorreste todas as feridas. Com os teus dedos verificaste  a cada momento se o sangue me corria nas veias. Vigiaste cada pequeno movimento meu para verificar se não eram espasmos de dor. Sentia-te em mim como a única ligação à vida, sentia a tua excitação como a vida que me tentavas dar a cada vez. Sem outra cura que a do teu corpo, aninhavas-me em ti e o meu sono sobressaltado de terrores indizíveis encostava-se à tua firmeza, ao teu sossego e dali não caía.

Esperaste sem um sinal de impaciência. Viste-me descontrair os músculos da cara, mesmo que ainda não falasse. Sentiste o meu corpo a entregar-se às tuas mãos, mesmo que não suspirasse. Viste-me levantar a mão para te tocar, mesmo que não sorrisse. E, no teu sono tranquilo, percebeste quando deixei de soluçar.

Um dia, acordei com o sol a bater-me na cara e quis falar. Vi a explosão de flores no jardim e quis bater palmas. Vi a tua beleza espalhada na cama, o teu sono tranquilo. Quis sorrir e tu acordaste à procura dos meus olhos.

Nesse dia, vestiste-me, como todos os dias. Levaste-me pela mão à frente dos teus e puseste-me uma coroa na cabeça. Eu, embriagada por ver de novo, por sentir de novo, por ter vontade de te tocar e de acariciar a pele como se as feridas fossem tuas.

Quis sair e ver o mundo. Quis rir com os animais que brincam, rir com as plantas que crescem. Tudo me parecia vivo, dentro e fora de mim. Tu não quiseste. Disseste-me que o mundo lá fora, para mim, nunca mais. Que me tinhas resgatado, que me tinhas recuperado quando eu já não era. Que a vida que eu vivia agora tu a tinhas criado para mim, dia após dia, tantos dias – quantos dias? A respirar devagar para ter a certeza de que eu conseguia acompanhar o teu ritmo.

Agora, à sombra destas pedras sagradas, dispo as túnicas que me vestiste, sinto o linho a cair-me em cima dos pés. Tiro a coroa que se tornou demasiado pesada, que me esmaga a cabeça, que se enterra nos ombros, que me força os pés a entrar na terra. Pouso a coroa no centro das pedras e deito-me assim, nua, de cara no chão e sou eu outra vez, só eu, o princípio e o fim, a vida que tenho ainda de criar e que é minha, mesmo para amanhã ser desfeita, para perceber que tens razão, que, sozinha, sou demasiado frágil para o mundo.

E sei que tu, despido na cama que foi nossa, compreendes. O teu sono hoje não vai ser sossegado. Mas sabes que viver com uma coroa pesada ia acabar por me matar de qualquer maneira. Em vez de espinhos dos cabelos, ias arrancar-me pedras preciosas cravadas na pele.

Se, de novo arranhada e chorada pela luz cruel do mundo cá fora, os meus passos me vão levar de volta a ti? Se me vais despir de novo, lavar de novo, amar de novo, de um amor feito de diligência e de vontade? Sabendo que, a cada vez, quando a ilusão de ser forte for minha, voltarei a estas pedras sagradas, para delas voltar ao mundo?

Agora sinto-me forte. A memória da fragilidade não me abandona e ainda assim. Se torno, se tornas, o que interessa?

RD, 11.07.2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Como usar o teu dragão


Nenhum dragão te salva, filha. Quem me dera ter-te dito isto há muitos anos. Mas achei que não o devia fazer, não me senti no direito de te impedir de sonhar e acreditei que serias sempre moderada nos sonhos. O que digo eu? Eu sei que os sonhos não são moderados, ou seriam projetos. Já imaginaste? Toda a gente a dizer: então o que projetas tu? Esta noite tive um projeto assustador. Não, não queria que a tua vida fossem só projetos. E vi-te tão forte, criei-te tão forte. Olha o que fizeste, olha como sempre conseguiste. E no entanto. Estás agora aqui sentada a olhar para mim, os olhos feitos água, outra vez vida e água, como no início, como quando estavas dentro de mim e eu protegia-te da dor com o meu corpo. Sabes que nunca me deixei sofrer enquanto estava grávida de ti? Nem uma pontada mais funda, nada. Queria que conhecesses o estado único de proteção absoluta. Mas não foi um dragão, filha. Foi vida e água.

Sabes, eles são assim, os dragões, está na natureza deles não nos poderem salvar. Tu sentas-te e vês o rasgo no céu, a sombra da asa, o calor súbito, um vento que fica a despedir-se do que passou. E tu aqui sentada com o teu sofrimento, como se quanto mais sofresses, mais ele fosse visível ao longe, lá de cima, pareces um farol de sofrimento, sempre aceso, à espera de salvamento.  Eles não virão, filha. Nunca vêm. Se foi cruel deixar-te acreditar que existem? Talvez. Mas eles existem e isso não to podia negar. Os dragões existem, filha. Mas tens de os saber usar. Vês? Os teus olhos brilham de novo, afastam a água. É um sonho que vem aí ou um projeto?

Tu podes sentar-te assim, como agora, e olhar o céu. Podes fazê-lo até todos os dias. Durante dez minutos, não mais. E olhas o azul e vês o rasgo, sentes o frio da sombra, o calor do bafo, o vento que se despede. E nesses momentos sonhas. E quando tiver passado, quando acabar, estás aqui na mesma. Ele não te leva às costas para sobrevoar o mundo e veres as suas maravilhas e os seus terrores. Não, tu vives no meio das maravilhas e dos terrores e és parte deles. Ele não te cura com a baba mágica. A dor é tua e enquanto a acarinhares como parte de ti, ela vai continuar aí. Do que tens medo, filha? De seres menos sem a tua dor e sem o dragão? És menos dor. Tu não és a dor. Deixa-a ir. Amarra-a na ponta da cauda quando ele passar. Não, não te estou a dizer que, afinal, ele te leva a dor. Mas tu podes mandá-la embora. Sim, estou a confundir sonho e projeto, tens razão. Sabes que as mães encontram sempre forma de dar utilidade às flores.

Fica aqui, tens os teus dez minutos de dragão. Ele só passa. Não te leva. Sente o alívio de não seres levada para onde não queres, mesmo que no meio do sofrimento qualquer sítio te pareça bom. Passada a dor, vais querer escolher tu.

Se estou a manipular os poderes do dragão? Claro que sim, todas as mulheres o fizeram antes de mim. E tu vais aprender a fazê-lo. Há as que sonham e acreditam no sonho e dizem que os montam e são salvas. Se vivem no sonho, não consegues falar com elas, vais parecer sempre um peixe a abrir e fechar a boca sem som. E não é a tua missão tirá-las de lá onde vivem. Também há as que negam a existência dos dragões. E mais uma vez, não é teu papel mostrar-lhes o que não querem ver. Tu sabes que eles passam. Basta olhar. E sabes que vê-los passar, sentir o seu calor, o seu frio, a sombra da asa, o vento da cauda, é o que podes ter. Não tentes agarrá-lo. Fica aqui sentada. Quando passar, verás que tudo te parece diferente e que a tua dor, afinal, se esqueceu de ser.  E mesmo que percebas que nem eu estou aqui já há muito tempo, estás tu e tu és e isso chega-te.
Aprende a usar o sonho. Dez minutos por dia. E não o confundas com um projeto. 

RD, 27.06.2012

terça-feira, 12 de junho de 2012

Coração ao alto



Pendurei o meu coração no teto. Ficou ali pendurado, ainda a bater, a deitar sangue, vieram os cães, vieram as hienas, lamberam o chão, lamberam o sangue, olharam para cima enquanto lhes cheirou a vida. Depois foram. O coração foi secando. Vieram as pessoas e todas dobravam o pescoço para o ver. Uns admiravam-lhe o tamanho, que coração tão grande, como é que ela conseguia? Outros, a forma, que coração tão bonito, porque o tirou? Outros, esmagados, baixavam os olhos, levavam a mão o peito e saiam, respeitosamente, como quem sabia o que ali se passava.

Mais tarde, o meu coração já desidratado, já sangrado, já só músculo murcho e veias secas, continuou a ser admirado. Houve ainda quem quisesse recuperá-lo. Abriram as janelas numa noite de tempestade, foi alguém que sabia que eu tenho medo dos relâmpagos. O vento bateu com as janelas, abriu-as para trás, a chuva entrou, molhou-o, escorreu por ele abaixo. Mas a água não entrou. E ele não estremeceu.  Deixou-o brilhante por fora, mas não foi absorvida, a sua textura esponjosa para sempre perdida.

Eu também continuo a voltar aquela sala onde deixei o meu coração pendurado. Sinto-lhe o peso assim que entro. Ajoelho-me no chão por não me conseguir manter de pé, tal é a pressão sobre os meus ombros. Olho-o e lembro-me. Recupero as memórias da leveza, de quando o sentia bater dentro de mim, calor e gargalhada, um eco só, o milagre espantoso de um ritmo feito de vida, eu, o sangue, o coração, todos cá dentro e eu inteira. Mas se continuar ajoelhada a memória do coração a bater mais depressa também vem. Primeiro, numa excitação mal contida, um assombro de vertigem, os pés fora do chão e tudo era possível. Depois a vertigem a transformar-se em dor, tão forte, tão intensa, tão crua. Nada me faria continuar a suportar aquela dor, nada fez. Arranquei-o. Abri a pele com as unhas, separei os músculos com os dedos, os ossos com as mãos  abertas, até o sentir. Puxei-o para fora de mim e pendurei-o. Lá, onde ninguém chega, onde eu não chego.

Passei muito tempo a tirar o sangue debaixo das unhas. Passei muito tempo a cerzir os tecidos, a coser tudo num ponto miudinho. Passei muito tempo a cuidar com delicadeza da pele que crescia. Ficaram as marcas, sim, mas são elas que me dão segurança. Passo os dedos a cada promessa de leveza, a cada súplica de amor, a cada: vai buscá-lo, por favor. Talvez um dia vá. No dia em que me ajoelhar perante o meu coração pendurado e não voltar a memória da dor que me fez arrancá-lo. Nunca mais aquela dor.  E agora não conseguiria voltar a rasgar a pele como o fiz antes. Lembro-me da sensação,  da pele, dos músculos, dos ossos a serem rasgados. Lembro-me do cheiro e dos sons e construo um horror que não senti. Mas que existe dentro de mim. Não torno.

A tentação é grande e de disfarces sempre novos. Quem me dera de novo a leveza. Agora é só ausência. Às vezes, ainda a memória de um membro mutilado. A paz de quem vive sem coração. Tão belo, ali está ele pendurado, brilha com as gotas de chuva, dir-se-ia feito de talheres de plástico.

Levanto-me, de joelhos doridos e saio devagar. Fecho a porta atrás de mim. Fica ali, onde ninguém lhe chega. Onde eu não lhe chego.

RD, 12.06.2012
Foto: Coração de Joana Vasconcelos, exposto em Versalhes, in Público.

domingo, 3 de junho de 2012

Regulador de intensidade


Dizias-me sempre, em voz baixa: "querida, sabes que é melhor assim. Fica um tom dourado, tudo ameno, tu acabas por te habituar e nem te lembras já que a luz era diferente". Tento fixar-me nos teus olhos, tento que a serenidade que mostras seja minha também. Se eu não desconfiasse de ti, era mais fácil. Mas desconfio, sei que não é verdade o que me dizes, o que me contas e tento acreditar, tento que seja verdade, porque sem isso perco-me e não sei o que fazer.

"Tu és demasiado intensa, querida, sabes que é verdade. A luz que sai de ti não deixa ninguém abrir os olhos e tu sabes que eu gosto de olhar para ti. Se me deixares rodar o botão, devagarinho, a luz vai baixando, suavizando, e tu só te sentes acalmar. Mais nada. E assim podemos ficar de olhos abertos e aguentamos olhar um para o outro.”
“Prometes que não rodas o botão totalmente? Não rodas até ao fim? Não me apagas? Por favor, diz-me que não me apagas."

"Claro que não te apago. Já to disse muitas vezes, desde que te coloquei  o botão. Só ponho a luz a um nível sustentável, na intensidade em que todos vivemos, menos tu. És demasiado intensa, tu sabes disso. Nem eu consigo viver com a tua intensidade, muito menos os outros. E eu nunca te apagaria, só te suavizo."

Tento acreditar nele, mas sei que não é verdade. Não tenho provas, mas sei que às vezes ele roda o botão até ao fim. Ouço o clique. Sinto-me desaparecer, apagar-me, desvanecer-me. Alguma coisa dentro de mim se vai encolhendo à medida que ele roda o botão e que a minha luz se suaviza. Cá dentro, nada é suave. É uma perda de fôlego, um encolher-me por dentro. Até ao clique.  E sinto de novo quando me liga, sei que há ar e só engulo água, respiro em grandes e sôfregos fôlegos, engasgo-me e duvido que consiga voltar a respirar. Naqueles segundos que demoro a retomar a vida, em que recomeço a viver a cada segunda-feira, sinto o medo de já não saber respirar, o medo de não saber onde estou, de acordar fora de mim, de não saber quem sou. E acordo e pergunto o que se passa e tu dizes-me, invariavelmente, “estavas a ter um sonho agitado, já passou, está tudo bem.”
Disseste-me uma vez que não suportavas a ideia de ver outros olhos iluminados pelos meus. Será por isso que a cada vez me apagas?

Vivo assim, encolhida, com a intensidade reduzida no nível que tu calculaste ser o certo para poderes abrir os  olhos, para ser tolerável e não luz intensa, que tudo ilumina, que não deixa espaço para sombras, que tudo revela, sem o sépia que disfarça as imperfeições.

Tu não sabes que, quando não estás, experimento rodar o botão. Achaste que o cravavas bem fundo, num sítio onde eu não chegasse. E eu sei que não te devo dizer que lhe chego. Estendo a mão e rodo devagarinho, para me habituar a mim mesma, esquecida do que sou neste tom suave em que me manténs. Aos poucos consigo habituar-me a ver tudo sem sombras e sem filtro suavizante. E nada me parece feio e assustador, apenas inteiro e vivo. Sei que tenho de voltar a rodar o botão para a posição em que o deixaste, decorei-a com a ponta dos dedos. Despeço-me devagar do brilho do que é a vida inteira e sinto-me encolher de novo. Um dia, talvez consiga perder o medo de que os outros não consigam abrir os olhos na minha presença. Nesse dia fujo. Arranco o botão, com ele no máximo e saio para o mundo. E sei que não me seguirás, porque se calhar só tu não consegues abrir os olhos. 

RD, 03.06.2012