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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Hoje comi um pastel de nata


Hoje comi um pastel de nata.

Tu? Comeste um pastel de nata?

Sim. Quero dizer, comi oito pastéis de nata.

Oito? Como oito?

Não, não foram oito. Mas para mim, comer um é como comer oito. Pesa-me igualmente na consciência. A verdade é que foram dois, de seguida, o que é terrível. Nunca tinha comido dois pastéis de nata de seguida.

Sentes-te assim tão mal?

Com os pastéis de nata?

Não, contigo, para precisares de comer pastéis de nata.

Como é que achas que eu me sinto?

Não sei. Quero dizer, vejo que estás mal. Mas não compreendo. Decidiste estar mal. Não precisas de estar.

Não preciso de estar? Decido estar mal porque gosto de me sentir mal?

Parece que sim, não precisas de estar mal. Podias olhar para as coisas bonitas…

As coisas bonitas? O que há de bonito em não estares aqui, comigo?

Lá começas tu.

É a verdade.

Porque é que tens de ser tão dramática? Não me perdeste. Não posso estar aí, é diferente. E pensar em ti só me faz sentir bem, não preciso de comer pastéis de nata.

Pensar no que sentes por mim faz-te sentir bem? Como olhar para uma fotografia de um momento bonito?

Sim, mais ou menos como isso.

Pois, as fotografias não se mexem, não nos ameaçam.

E lá vem novo ataque. Qualquer coisa que eu diga serve sempre para me atacares.

Pois é, se calhar porque é a única coisa que tenho. Palavras, e já nem bonitas.

Não, tens a leveza do que vivemos.

Não, tenho o peso do que não vivemos.

Claro, tens de ver sempre pela negativa. Sabes que podemos escolher aquilo em que pensamos?

Sei. Posso pensar em pastéis de nata. Sabem-me bem e não me magoam.

Bom, mas pesam-te na consciência.

Tu também. Não me pesas na balança, tens a vantagem de ser low fat.

Tenho alguma coisa de bom? Nem parece teu.

Sabes que eu não gosto de ver as coisas más. Não escolho vê-las. Mas não consigo esse exercício de alienação que tu consegues, que é não as ver. Como se não pesassem.

Pesam. Só que eu decido que as bonitas pesam mais.

Que conversa parva. Prefiro pastéis de nata. Pesam na consciência. Mas não têm metafísica.

Não me perdeste, não me vais perder nunca.

Que conversa idiota. Os pastéis de nata são incrivelmente honestos, sabes? Tu olhas para eles e eles dizem-te: come-me. Vou engordar-te, não te enganes. Mas vou saber-te bem. E não te dou conversas parvas. Mais honesto do que um pastel de nata, só um mil-folhas.

Agora conversas com bolos?

Sim, pode ser muito compensador. E a seguir como-os e eles não falam mais. Tu ressonas?

Que raio de pergunta é essa? Sabes bem que sim.

Pois sei. Olhe, se faz favor, traga-me mais dois pasteis de nata.

Dois? Sabes que eu não gosto de pasteis de nata.

Sei, são para mim.


RD, 9.09.2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

As Horas


Ao Eduardo, a quem desejo que a felicidade sejam muitos momentos sem tempo.

Revejo o filme As Horas. Lembro-me da incomodidade que me causou quando o vi pela primeira vez, sem ter percebido bem porquê. Gostei da interpretação das três actrizes, é magnífica, mas não percebi sobretudo aquela dona de casa desesperada. A infelicidade das outras era dizível, traduzia-se em questões concretas, uma meio louca, incompreendida, acossada pelas personagens dos seus livros e fechada da vida que quer, sem a deixarem viver para impedirem que morra. A outra, um amor enjeitado, nunca acabado, pervertido numa dependência que não a deixa ser, só viver em função do homem que a trocou mas sem nunca a deixar completamente, e de quem ela trata até à morte. O suficiente para nos deixar a nós deprimidos. Mas aquela leitora dona de casa, mãe, que quer tomar comprimidos para morrer quando carrega um filho no ventre, foi-me estranha.

Agora, ao ver o filme pela segunda vez, talvez por força das circunstâncias, talvez pelas palavras ditas e não legendadas, que me obrigaram a maior atenção, percebi. Dizem que, para haver interpretação, tem de haver emoção, têm provas neurológicas. O que não nos faz sentir, não faz sentido. Pode fazer-nos até sentir repulsa, tédio, aversão. Ou identificação, olha é tal e qual o que me aconteceu, ou é mesmo daquilo que eu gosto. A arte sem emoção é trabalho, apenas. Olha que bem desenhado, que traços direitinhos. Isto não é apreciação estética, é técnica. E foi a emoção que me levou a compreender aquela personagem. Ouvi-la levantar os olhos para o relógio, o dia dela lento, uma vida toda num dia, sem saída, o sufoco do tempo que não leva a lado nenhum.

As horas. O desespero dela é o peso de quem conta o tempo. De quem olha para o relógio e espera que o tempo passe, como se nessa espera se antevisse alguma solução, ou como se esperar fosse a própria vida. Sente-se o ponteiro dos minutos a roçar a pele, sempre no mesmo lugar, vai aumentando o desgaste. Nada de especial acontece. Nada de muito mau. Nem de muito bom. Tudo é apenas uma sucessão de minutos arrastados, difíceis de saltar, todos alinhados. Não passam.

Podemos pensar que é ociosidade. E pensamos. Que disparate, não tem problemas realmente graves, o que lhe passou pela cabeça? É desequilibrada. Não nos ocorre que o desespero possa ser um problema grave. O desespero que se agarra à pele, entranha-se, toma conta dela, não a deixa respirar sem ouvir o tempo a passar. Que se ocupe, pensamos nós.

Eficientes que somos, pensamos imediatamente em formas terapêuticas de não viver assim. Fazemo-lo continuadamente. Tomamos comprimidos que nos ajudam a não sentir os ponteiros a arrastarem-se, cada vez mais pesados, ou vamos para uma solução mais natural: ocupamos as horas, os minutos, os segundos. Enchemos qualquer pequeno buraco que nos possa deixar sozinhos connosco, sem nada para fazer, com actividades, nossas, dos nossos filhos. É preciso estar sempre em actividade, não aconteça sentirmos o tempo a passar. O silêncio assusta-nos, rodeamo-nos de barulho, abafamos os pensamentos incómodos. Corremos de um lado para o outro e ainda nos gabamos disso. Estiveste quanto tempo contigo hoje? Que disparate, eu estou sempre comigo, eu sou eu. Corremos tanto e ocupamo-nos tanto a fugir de nós próprios que até é estranho o país não estar já em excesso de produção.

Dizia um amigo, há pouco tempo, que a felicidade é um estado de espírito. Talvez tenha razão. Pode até ser a euforia resultante de duas horas de ginásio, mais um negócio bem conseguido, mais um jantar brilhante num restaurante ainda mais ofuscante. Sentimo-nos bem, vencedores. E vamos para casa tarde, beijamos as crianças e adormecemos rapidamente, embalados pelo álcool que bebemos e pelo sabor da vitória no campo de batalha. Tem razão, meu amigo, é uma atitude. Decidimos pôr um sorriso na cara e mostrar a todos tudo o que a vida e o mundo têm de positivo. E podemos viver uma vida inteira assim, sem dúvida. Desde que não paremos. Não podemos dar um minuto a nós próprios, porque se nos encontramos connosco podemos ver que afinal temos vivido em esforço e que nos apetece parar um bocadinho. O pior é que, quando o queremos fazer, ninguém nos deixa. Pára lá com isso, muda de atitude, veste outro estado de espírito, toma uns comprimidos, vai às compras. Não nos incomodes com esse teu estado de espírito, tu que sempre animaste toda a gente, olha que disparate, que inconveniente, que mal que fica.

Parece que o segredo é não parar. Ocupar as horas todas. Assim não sentimos se passámos a fenda que se abre quando a leveza passa a ser insustentável e é só massa a puxar-nos para baixo. Ou então o contrário, se passámos a fenda e entrámos num espaço sem gravidade, onde tudo é fácil. Leve. As horas não existem, o tempo é medido em leveza, possibilidade, um jardim a explodir de vida. Somos alegria, mal tocamos com os pés no chão e nada é impossível. Esta força criadora, que nos leva sempre além de nós mesmos, pode não ser felicidade. Pode ser só euforia. Sabemos lá o que é a felicidade. Como diz a fabulosa Clarrisa: I remember one morning getting up at dawn, there was such a sense of possibility. You know, that feeling? And I remember thinking to myself: So, this is the beginning of happiness. This is where it starts. And of course there will always be more. It never occurred to me it wasn't the beginning. It was happiness. It was the moment. Right then.


RD, 01.09.2011 

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A arte do pousio


Este é um texto arriscado. Posso incorrer naquilo que é considerado um pecado capital na minha religião, o de fazer generalizações. Aliás, preciso mesmo de o fazer ao longo do texto, sei-o, ainda não o escrevi e, no entanto, não consigo parar de escrevê-lo. Antes me apetecesse escrever outra coisa, uma assim mais para o lado das virtudes. Mas não. Preciso, sabe-se lá porquê, ou antes, eu sei, mas demoraria muito a explicar, de escrever sobre a necessidade de falar ou de ficar calado. E vou fazê-lo associando-o aos géneros. Já me sinto a derrapar, mas vocês são tolerantes e perdoam-me, por enquanto.

É velha a afirmação de que as mulheres precisam de falar e os homens preferem agir. Para além de generalização, vulgarizou-se tanto que incorro naquele outro pecado, que é o de dizer banalidades. Interrogo esta necessidade de os homens se calarem, mesmo quando os interpelamos, mesmo quando dizemos que estão a ser uns brutos insensíveis, mesmo que ameacemos que a nossa vida depende de falarem. Pode ser defensivo. Se não falarem, não se enterram. Pode ser ofensivo, vale tão pouco esta conversa, que nem me digno responder. Pode ser muita coisa. Pode ser uma herança ancestral dos caçadores que eram, e que sabiam que se ficassem calados e esperassem, a presa acabaria por lá ir ter.

Nós precisamos de falar à exaustão. Esmiuçar. Encontrar as razões, as des-razões, as causas e os efeitos, reais ou inventados, de preferência imaginados. Somos perfeitamente racionais, capazes de obter uma nota excelente num exercício de retórica com os argumentos e contra-argumentos que esgrimimos, numa discussão que fazemos sozinhas, enquanto eles acenam a cabeça, antes de começarem a agitar-se e a soprar. Se a vida fosse um exercício de retórica, ganhávamos, de certeza (a bicicleta?). Às vezes parece que é, ou antes fosse. Ou somos perfeitamente irracionais, deixamos as emoções transbordarem olhos fora em lágrimas abundantes, cristalinas, soluçamos, mas não paramos de falar. E obrigamos o outro a um exercício linguístico cujo estilo não escolheu, cujo tema não lhe apetece, cujo desfecho já conhece. Temos de compreender e compreendemos falando.

Dei por mim, há pouco, a ouvir uma amiga contar os argumentos e contra-argumentos de uma discussão ponderosa, um assunto sério, de amores, pois claro. Porque fazemos mais isso: para além de precisarmos de falar com o sujeito em questão, precisamos de falar sobre o que falámos com uma amiga, duas, meia dúzia. E esmiuçar o esmiuçado, num exercício que não tem fim, que se auto-alimenta, de análise do discurso do mais sofisticado que há.

Ele disse-me bom-dia. O que achas que queria dizer?

Acho que te queria dizer bom-dia. Mas foi assim um bom-dia como? Carrancudo? Insinuante? Bem-disposto? É que se foi bem-disposto, já tem outra.

Não, foi carrancudo.

Ah, isso é completamente diferente. Tens de falar com ele.

E continuamos. Dizia eu que ouvia um destes relatos, na verdade com mais conteúdo. Pensei, e disse-lho: vocês já disseram isso muitas vezes um ao outro, só se vão cansar, estafar a vossa relação, encher o vosso amor de palavras desnecessárias. E mesmo que não tivessem dito já tudo isso, não sabem que assim é? Não seria melhor afastarem-se um tempo, ficarem calados, deixarem pousar e ver o que sobra, em vez de exaurirem o que sentem nessas conversas? Ouvi-me dizer estas palavras e toda eu me recolhi. Assustei-me, pensei: estou possuída, é o demónio, mesmo não acreditando nele, apanhou-me, é castigo, é praga, é qualquer coisa sobrenatural, ai socorro, quem me salva. Olhei-me ao espelho. Não estava a crescer um bigode, a pele continua macia. As maminhas estão cá. Fui fazer o teste definitivo: olho para uma fotografia do Clooney ao lado da namorada. Acho-o lindo, ela uma descarada sem graça. Fico descansada, continuo mulher. Então o que me deu para começar a pregar o pousio, em vez da conversa esclarecedora, iluminadora, racional e adulta?

Deu-me uma terra queimada, devastada pelo fogo, destroços de imponentes árvores, reduzidas a cinzas, troncos enrolados. Uma camada de cinza alta, enterra-se os pés a andar, entranha-se na pele, abafa os sons, torna tudo negro.

Deu-me um dia de chuva, que ensopou a cinza, fê-la entrar na terra. Misturou o cheiro a queimado com o da terra molhada.

Deu-me um dia de sol, não muito quente, sol meigo, brilhante, secou a cinza, secou a lama, acendeu a vida.

Deu-me um dia de vento, muito vento. Soprou para longe os restos de cinza que se escondiam nos cantos escondidos dos troncos, soprou o lixo, soprou o cheiro a queimado.

Por baixo, estava a terra preta, fertilizada pela cinza. Ervas pequenas, muitas, um tapete delas, rompiam pelo meio da terra, pequenos caules, muito verdes, muito frescos, cheios de vida. Um pequeno pinheiro aqui e ali, tão pequenino, parece uma aldeia em miniatura. Um dia, vai dar sombra às crianças. Uma flor ainda em botão, uma promessa de branco, mais uma mancha de cor no chão escuro. Imaginem uma terra molhada, preta, cheia de pontinhos verdes e brancos, a rebentar de vida.

O pousio. O silêncio. E a recuperação, a transformação do queimado em vida, o retorno dos cheiros e dos sons. Foi isto que percebi que me deu e que quis dar à minha amiga. Não queimes mais o que já está queimado. Não destruas o que ainda pode ser vida. Espera um dia de chuva. Um dia de sol. Um dia de vento. Talvez os homens conheçam a arte do pousio. Ou talvez sejam só negligentes e pensem “deixa-a pousar”. Não o saberemos. Nem queremos ser como eles, vamos continuar a falar e a precisar de palavras, de muitas palavras. Mas às vezes conseguimos ficar caladas. E quando o conseguimos, vemos a renovação a acontecer e ficamos, encantadas, a olhar para o que sempre lá esteve, escondido pelas palavras. 

RD, 25.08.2011

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Obrigada pelos 1000!

Caríssimos, o Falsas Evidências passou as 1 000 visitas. Obrigada e parabéns para ele. Confesso que fico curiosa sobre quem me lê na Alemanha, em Espanha ou na Bélgica... Nos EUA e em Macau, eu sei. :) Palminhas, palminhas, vamos fazer uma festa!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Cada vez que dizemos adeus


À Mena, que cuida das infestantes como se fossem rainhas.
Àqueles de quem não me quero despedir, antes dizer "estou aqui".

… eu morro um pouco. Traduzido não funciona tão bem, mas não queria mais um título em inglês. Este tinha de ser em português. E na nossa língua não nos faltam formas de dizer a velha dor humana que ainda não soubemos curar. Por maior que seja o desespero, nenhuma ausência é mais funda do que a tua. Aquela triste e leda madrugada. E por aí fora. O difícil é escolher. Em cores de quadros, em ângulos de esculturas, em sons de vozes cantadas, damos forma ao adeus, tentamos aprender a viver com ele, exorcizamos o mal que nos faz, tapamos a ferida aberta com um penso pequenino, mal colado, uma ponta levantada e começa-se a ver o abismo sulcado pelo o que levaste contigo.

Seja por umas semanas, uns meses, uns dias. O tempo que me separa de ti é em medidas internas. A distância entre nós só pode ser medida a dedos. Porque o que levas de mim contigo não pode ser substituído pelo que me deixas de ti. Este trocar de peças deixa sempre espaços por preencher, sulcos profundos por onde o vento passa e é só escuridão e frio. O que me deixas teu são os lugares do sol. Separamos o nó Górdio do que é meu e do que é teu e tudo fica incompleto. Dizem as más línguas que Alexandre, o Grande, não o separou, cortou-o com a espada, não havia outra maneira. Com sorte, uma boa lâmina, um corte bem feito, sem arestas.

E não encontramos maneiras de treinar o adeus para ser outra coisa. Podíamos excluir da nossa língua as palavras despedida, adeus, saudades. Temos de excluir o mas.

Vais-te embora.

Vou. Agora estou aqui. Olha para mim.

Sim, estás aqui, mas…

Não digas mas, sabes que em nós não há mas.

Sim, tens razão. Estás aqui. Eu estou aqui.

Se aprendêssemos a substituir o adeus pelo estou aqui, talvez fôssemos menos melancólicos. Aprendíamos a aceitar o presente com o laço que traz em cima, embrulho generoso do tempo que tendemos a ignorar, de olhos postos a chorar o passado, de olhos postos a ansiar o futuro. O presente não carece de adeus.

Cada vez que dizemos adeus. Mais um pedaço que me falta. Sei em ti onde me levas, é numa parte incerta, lá dentro. Encontro-a porque está dorida das tuas noites de vigília. Sabes-me infestante, como as flores comestíveis, e tens medo que eu saia do espaço limitado em que me guardas. Mas não queres que te me arranquem as raízes e por isso vigias. Cuidas e vigias. Preço elevado por flores comestíveis, bravias, que crescem no meio das ervas, em qualquer terra.

Sei onde te guardo, porque é por todo o lado. E às vezes não sei se o que faço é meu ou teu. Se a força com que enfrento a água de olhos abertos é minha ou tua. Se aquela frase que escrevi no outro texto era feita de palavras minhas ou tuas. Quero comer as bolachas como tu as comes.

Sei onde me faltas, e é sobretudo em mim. Não é de ti que sinto falta. É de mim, da pessoa que eu sou quando estou contigo. Mas tento aprender a falar sem mas e tu estás aqui.

RD, 22.08.2011

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O texto da minha religião

Dado o sucesso do último texto, e mantendo a afirmação de que não aceito inscrições para a minha religião (a menos que paguem, claro. Assim torna-se numa religião a sério e tenho isenção de impostos. Nem eu sou assim tão esquisita), pensei nos fundamentos da minha Igreja. Preciso de uma pedra. Preciso de mandamentos. De pecados. E de virtudes. Não me parece complicado, já que não tem de ser um sistema coerente. Se o fosse, não seria uma religião. E as cosmogonias não precisam de coerência, só de ordem. A ordem é a que nós quisermos, podemos até optar por uma ordem feita de desordem.
Feitos os desnecessários preâmbulos iniciais, passemos então ao texto que enforma a minha religião. Começo pelos mandamentos, invocando a legitimidade, ao abrigo da liberdade de expressão, de adoptar alguns mandamentos de religiões alheias. E adaptar, já agora, porque se não era apenas uma mistura de ingredientes que nunca chegaria a dar um molho. E o molho é importante para a religião, para não ficar sensaborona.
1º mandamento: Não comerás bolo de chocolate à segunda-feira.
2.º mandamento: Não dormirás com quem não te apetecer.
3º mandamento: Tem de lhe apetecer a ele/ela também.
4º mandamento: Ri-te sempre, ri-te muito. Ri-te, sobretudo, de ti próprio. Quem não sabe rir, não presta para nada.
5º mandamento: Despacha o trabalho e bem feito, para aproveitares as horas de descanso.
6º mandamento: Se descansas, não deixes que te interrompam.
7º mandamento: Faz aos outros o que gostavas que te fizessem a ti. Quero dizer. Nem tudo. Faz umas coisas a uns e outras a outros.
8.º mandamento: Todas as criaturas têm o seu lugar na terra, respeita-as.
9.º mandamento: Se não fazes nada de jeito, não gastes o oxigénio dos outros.
10º mandamento: A família é o melhor que há. Não passes férias com eles.

Fundados os pilares da minha religião neste solo, vamos aos pecados e virtudes. O que significa pensar em castigos e recompensas. Veremos quando lá chegarmos.
Pecados capitais (é só para manter a designação. Aplicam-se também fora da capital. Não há pena capital, somos um povo pacífico.)
1 – Recusar-se a aprender.
2 – Comer mais do que a altura o permite.
3 – Dizer banalidades.
4 – Responder com generalizações (tipo: pois, as pessoas são assim. Quais pessoas, pá?).
5 – Usar chinelos sem ser para ir para a praia.
6 – Usar leggings brancas.
7 – Começar mais do que um terço das frases por “Eu”.

Não está mal. Continuemos.
Virtudes
1 – Fazer rir os outros.
2 – Dar mimo a quem precisa dele.
3 – Ouvir um chato, de vez em quando (uma vez por mês chega).
4 – Alimentar quem tem fome, desde que não sejam adolescentes.
5 – Estar disponível para ajudar, sobretudo quando o que estamos a fazer é uma seca. Geralmente, é.
6 – Não desistir de nós e dos outros facilmente, só porque nós e os outros somos difíceis de resolver.
7 – Amar um cão.

Como castigos e recompensas, e para não nos cansarmos mais que o exercício de elaboração teológica já vai longo, optamos por um sistema simples de pontos. Some um ponto por cada virtude posta em prática. Retire dois por cada pecado capital cometido em actos (em pensamentos não conta, cada um pensa o que quer). No fim do mês faça as contas. Se o saldo for negativo, escolhe duas virtudes para melhorar e dois pecados para combater. Se ao fim de seis meses não tiver melhorado nada, procure outra religião, esta não é para si. Se já conseguir um saldo positivo, mude de religião na mesma, esta já lhe deu tudo o que tinha a dar. Se está confuso, fique contente, essa é a disposição certa para ter fé. Aceite. E faça contas. Não tem de se preocupar com mais nada.
RD, 14.08.2011

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Losing my religion


Ao João, homem de fé, com quem posso blasfemar e falar de todas as coisas.

Minha mãe, senhora de mão de ferro, braços fortes e vontade de uma liga inquebrável, educou-me nos bons princípios da igreja católica. Uma menina tem uma lista infindável de bons comportamentos a aprender ou o inferno à espera. Hoje vejo a grande vantagem do inferno. Todos os dias, quando tento educar os meus filhos pela ética, percebo como seria mais fácil a ameaça do fogo eterno. Que jeito dá o diabo, sempre atento, sempre à espera da primeira falha, mesmo quando a internet está desligada e até nos cantos a que o Google Street View não chega.

Uma menina não se queixa, mostrar o sofrimento aos outros é falta de pudor. Uma menina não se ri à gargalhada. Estar feliz é razão para sermos castigados. Este ponto ainda hoje me confunde. Será por razões preventivas? Devemos estar sempre infelizes para nos prepararmos para a infelicidade inevitável? Hei de perguntar. Em abono da verdade histórica do meu crescimento, a pedagogia do ser discreta no sofrimento foi mais eficaz do que a que pregava a recusa das gargalhadas. Calar a alegria sempre me pareceu contra-natural.  E mais difícil do que calar a dor. Rir os dois minutos de felicidade a que temos direito sem medo de provocar os deuses invejosos continua a ser um postulado da minha religião pessoal.

Com a adolescência, naturalmente, as dúvidas. Sobretudo com a Filosofia. Não que tenha percebido a maior parte das conversas difíceis daqueles senhores com ar sisudo. Mas aprendi a perguntar. O que percebi foi básico, elementar  e, no entanto, não me deixou voltar para o mesmo lugar. Percebi que o mundo podia ser interrogado com ou sem deus. Mas que tinha de ser interrogado. Que a razão da nossa existência e da nossa forma de nos relacionarmos com os outros deve ser escrutinada. Foi uma boa lição de vida que a escola me ensinou. Não sei as datas, nem que teorias correspondem a que filósofos. Tenho vagas ideias sobre um Schopenhauer depressivo e um Kant das antinomias. Teria má nota num exame de Filosofia. Mas aprendi a questionar. E só há pouco tempo (sou uma aprendente lenta) percebi como é difícil fazermos as perguntas certas.

Mais tarde, e quando comecei a conhecer melhor a história das civilizações, percebi o que era a religião. Não foi uma rutura radical, não foi uma zanga com Deus, não decidi deixar de lhe falar. Foi mais um desencanto com todos os deuses, em geral, por não aceitar que as propriedades divinas de que são dotados, por fraquinhas que sejam, não se possam usar sempre que uma criança é violentada. Que os poderes não se possam convocar sempre que uma criança morre de fome. Que um ser divino possa virar a cara e fingir que não vê a imagem daquele bebé na Somália. E o livre arbítrio não me consola. Pois é, escolheram mal o país. Até a latitude é má, o continente todo. Que crianças irresponsáveis, não sabem escolher um sítio com água para nascer. Ou o meu dogma favorito: os desígnios do senhor são misteriosos. Dá tanto jeito, que o uso até para as minhas mudanças de humor: “olha lá, ainda há pouca estavas tão bem disposta e agora estás com essas trombas?!” “Sim, o que queres? Os desígnios do senhor são misteriosos.”

Quando passei a olhar de fora, nunca mais consegui olhar de dentro. Perdi em companhia e tenho de encontrar formas variadas de substituir o pensamento mágico. É trabalhoso. Em vez de ser o destino que decidiu, sou eu a responsável. Em vez de atirar com as culpas para o diabo, as provações, o que for, sou eu a culpada. Em vez de usar o azar (naquela graciosa e única mistura que conseguimos fazer entre religião e superstição) para justificar o que acontece, tenho de encontrar uma explicação feita de fenómenos físicos. Dá trabalho. É cansativo e não tem recompensa que se adivinhe no post mortem.

Hoje tenho uma religião privada. Desculpem, mas não aceito inscrições. É íntima e eu aprendi o pudor. Herdei da outra religião. Acredito que, de uma forma que a ciência explica, o universo tem mecanismos próprios para encontrar o equilíbrio. Nada se perde, tudo se transforma. Uma capacidade infinita de se adaptar que me faz recusar o apocalipse. Ponho-lhe uma pitada de budismo, porque acredito que a divindade somos nós e a nossa força de vontade para fazermos o que quisermos. E que devemos respeitar os outros seres como iguais. Estas são as constantes da minha religião. As variáveis variam. Há dias em que a minha religião é a poesia e acredito que não há forma mais bela e simples de ver o mundo. Um golpe de asa e eu era além. Não são precisas mais palavras para dizer o quase. Cortaram os trigos. Agora a minha solidão é maior. Dois versos e sentimo-nos isolados, nem o vento nos faz companhia.

E desculpe, João, mas não sou panteísta. Quero dizer, sou. Também sou. Sou quase tudo. É ainda pior, a minha religião parece uma daquelas lojas antigas em que se encontra veneno para os ratos, rolos de cozinha, passadores de leite e morangos da horta. Tento não ser maniqueísta, o que nem sempre é fácil. Às vezes, os maus são mesmo maus e isso dá-nos segurança. Sou de uma religião feita de pedaços disto e daquilo. De dogmas inquestionáveis acerca da necessidade de nos dedicarmos aos outros e de sermos honestos connosco. De um cepticismo praticante em relação a tudo o que me é apresentado como definitivo. De mar e de montanhas. De cinema e de literatura. Acredito no Gandalf e no Frodo, no Harry Potter,  na Rainha de Copas e na Alice.

De pessoas. Acredito nas pessoas e até gosto delas, o que é estranho, já que as pessoas são falíveis. Há pessoas maravilhosas em quem eu acredito e que, por muitos disparates que façam, serão sempre extraordinárias. Preciso ainda de magia para tirar os pés do chão por uns segundos, já que a minha prática de yoga não me deixa fazer tanto. Não venero um deus com cabeça de elefante, mas acredito que a meditação me ajuda a não precisar de estímulos constantes e a disciplinar-me. Desconfio tanto de quem usa o pensamento mágico para explicar tudo o que lhe acontece na vida como quem recusa a magia como sendo infantil. Eu sei que é uma religião estranha, mas não vos quero convencer. Como disse, não aceito mais praticantes. É uma religião unipessoal, da qual sou fundadora, sócia única,  para não ter de submeter a votação o que todos os dias lhe acrescento e o que lhe retiro. Tento sempre acrescentar mais do que retirar. Ajusto-a a mim até me sentir confortável. Sou a CEO da minha religião. Soa mesmo bem.

E descubro, afinal, que o título está desadequado ao texto. Não perdi a minha religião. Encontrei-a. Estou sempre a encontrá-la. Nas pessoas, nos sítios por onde passo, no sabor incomparável do café que bebo de manhã, no sorriso ensonado dos meus filhos. Dentro de mim. Mas mantenho o título, porque gosto da música e a minha religião também é feita de música. Não deve haver em mim religião sem música. É mais um dogma meu. 

RD, 30.07.2011